Quem pediu conselhos?Por Mário Durval

Por Jornal Rostos
Logo após as ideias conservadoras terem sido preteridas pelo povo português, ao votar a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de gestação, os seus representantes entraram em acção. Deve ser-lhes difícil engolir que a ideologia de obediência sem questionar as razões, seja, assim de repente, suplantada pela afirmação da liberdade de pensamento e acção, na exclusiva dependência da consciência da mulher. Por isso, querem que haja, institucionalizado, um “aconselhamento da mulher” antes de esta decidir interromper a gravidez.
Já agora, poderemos recorrer ao dicionário da Porto Editora - Primberam e ver o que significa aconselhar: dar conselhos a; admoestar; avisar; convencer; sugerir. Vemos claramente que, muito mais que uma simples informação, que do ponto de vista técnico seja fornecida à mulher para decidir com todos os dados em função das suas motivações e limitações objectivas, é sobretudo uma “doutrinação” que defendem. Era bom que dissessem que o “aconselhamento” seria aquele que segue os seus princípios, a sua ideologia e não outra, que se possa opor à sua, ou apenas seja divergente. Ou seja, depois de serem derrotados nas urnas ainda querem obrigar-nos a seguir as suas orientações.
A igreja católica, que tem liderado as forças do NÃO, sente-se no direito de impor as suas convicções morais a toda a sociedade. Como vivemos na época da tolerância, não podemos aceitar que novas cruzadas se levantem contra quem pensa de forma diferente quanto aos seus comportamentos e convicções individuais.
Por isso, deveremos ser claros quanto ao que foi decidido: o que prevalece á a vontade da mulher. Cabe à mulher a decisão se quer, ou não, interromper a gravidez, munindo-se das opiniões de quem muito bem entender. Naturalmente que as mulheres católicas poderão recorrer às instituições católicas e aos seus ministros e auxiliares, as protestantes, idem, aspas, assim como as muçulmanas, etc. Todas elas, incluindo as que não têm religião (e têm direitos iguais às outras) poderão recorrer ainda aos amigos, família, ou técnicos para formar a sua opinião.
No entanto, não cabe ao estado, de modo nenhum, abrir espaços de aconselhamento que sejam dominados por uma ideologia, qualquer que ela seja, particularmente quando se possa pretender inculcar sentimentos de culpa na mulher que, por razões diversas se vê obrigada a fazer um aborto. De facto, é neste sentido, que toda a campanha dos defensores do NÃO foi feita, ao fazer das fotografias de fetos o seu motivo gráfico fundamental.
Os defensores do NÃO podem abrir, se assim o entenderem, centros de aconselhamento anti-IVG. São as suas convicções, que eu respeito, mas não estou interessado em pagar, com os meus impostos, essa campanha de estigmatização das mulheres que têm opções diferentes das deles e, estão protegidas pela maioria referendária.
E já agora, que cada um dê conselhos a quem os pedir…
Mário Durval – Concelhia do Barreiro do BE
mariodurval@sapo.pt














