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Quotidianos

Nuvem passageiraPor Paulo Calhau

. 96º aniversário do Futebol Clube Barreirense

Assistirei esta noite, como é habitual e politicamente correcto neste tipo de cerimónias, a um desfilar de discursos e intervenções de personalidades institucionais e de convidados − mais ou menos ilustres e significantes no contexto político e desportivo local, regional e nacional − glosando o passado riquíssimo do FCB e desejando que o seu futuro seja próspero e fecundo.

7 min de leitura
Nuvem passageira Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

“A cada dia, sua pena e sua esperança”
Provérbio português

Celebra-se esta noite o 96º aniversário do Futebol Clube Barreirense (FCB), em sessão solene que terá lugar no Ginásio-Sede do prestigiado, histórico e popular clube do Barreiro.

É verdade que ainda me emociono com o momento da entrega dos emblemas aos associados com 25 e 50 anos de filiação.
É verdade que continuo a aplaudir com redobrada energia os nossos mais recentes campeões nacionais.
É verdade que me agrada reencontrar consócios e amigos que as circunstâncias da vida apenas permitem rever a espaços.

Mas confesso que, ano após ano, vou ficando algo cansado e um pouco saturado pelo formato e conteúdo − monótono e repetitivo − do nosso “11 de Abril”.
Apetece-me ser bucólico e nostálgico, rever e agradecer o esforço colectivo de gerações sucessivas de Barreirenses, que deram nobreza, vitalidade e consistência a este grande clube.
E, simultaneamente, situar-me na contra-corrente, e afirmar − sem medos e sem ponta de constrangimento − que estou insatisfeito com o presente e preocupado, muito preocupado, com o futuro.

Assistirei esta noite, como é habitual e politicamente correcto neste tipo de cerimónias, a um desfilar de discursos e intervenções de personalidades institucionais e de convidados − mais ou menos ilustres e significantes no contexto político e desportivo local, regional e nacional − glosando o passado riquíssimo do FCB e desejando que o seu futuro seja próspero e fecundo.
Não é esse o meu actual estado de alma, nem o propósito destas minhas palavras.

Em 21 de Julho de 2004 assumi funções de responsabilidade no FCB, como vogal da direcção, em representação da Secção de Basquetebol, que vivia então − ainda se lembram? − um momento particularmente difícil, por uma ameaça tão real quão iníqua de extinção da modalidade no clube, pelo menos na sua componente (semi)profissional.
A experiência acumulada em dois anos de mandato, nos quais além de servir o projecto do Barreirense Basket, procurei ter uma actividade de maior abrangência no interior dos seus órgãos sociais, permitiu-me obter um conhecimento mais real do FCB, nas suas vertentes desportiva, administrativa e financeira.
E prometer − no momento da saída − continuar a reflectir e a intervir.

Nesse propósito reflexivo e de criticismo construtivo, escrevi recentemente um conjunto de dez textos subordinados ao tema “Barreirense: que futuro?”, publicados no Jornal do Barreiro, entre 1 de Dezembro de 2006 e 2 de Fevereiro de 2007.
E que coligi num texto global, disponível para envio pelo meu endereço electrónico, a todos quantos manifestarem interesse na sua leitura.
As palavras iniciais do primeiro capítulo, deram o mote para a minha preocupação principal: “Será o Barreirense um clube com futuro?”.
E continuava:
“Num tempo em que Portugal se defronta com graves dificuldades financeiras e a recuperação económica tarda em consolidar-se, a generalidade dos clubes desportivos acusa evidentes sinais de fragilidade e dependência. Alguns pereceram, outros têm a morte anunciada, muitos revelam uma viabilidade manifestamente comprometida”.
Para alertar de seguida:
“É neste contexto de dificuldades e constrangimentos económico-financeiros e de um novo enquadramento legal, que importa reflectir acerca do futuro do Barreirense”.
E propor:
“O Barreirense do séc. XXI deverá ser:
- conceptualmente criativo
- desportivamente ambicioso
- estruturalmente realista
- administrativamente moderno
- política e financeiramente independente.
Alguns conceitos programáticos deverão servir de fundamento para uma acção consequente.
Assim, importa em minha opinião:
- analisar e reforçar a matriz e identidade do clube
- promover uma revisão e actualização estatutária
- definir uma nova política desportiva
- modernizar a organização administrativa
- projectar a estrutura e dimensão das instalações desportivas
- fomentar o crescimento da massa adepta e associativa
- renovar as áreas de comunicação, imagem e merchandising
- melhorar os índices de democraticidade e participação
- incrementar a inserção na juventude barreirense
- reformular e actualizar os contrato-programa com a autarquia
- atrair e conquistar o tecido empresarial local e regional
- aprofundar a ligação aos agentes culturais do concelho”.

A escassas semanas de completar 50 anos de filiação no FCB estou, como atrás referi − e perdoem-me a insistência − insatisfeito com o presente e preocupado, muito preocupado, com o futuro do meu clube de sempre.
Insatisfeito pela défice de participação dos associados na vida quotidiana do clube que escolheram como seu.
Insatisfeito pela forma, por vezes autista e sobranceira, como os lideres do FCB prosseguem a sua actividade directiva.
Preocupado com a actual situação patrimonial, decorrente da venda do “D. Manuel de Melo”.
Preocupado com a ausência de projecto − desportivo, comunicacional e cultural − em que (sobre)vive o FCB.

Prestes a mergulhar no 4º escalão do futebol nacional, o FCB corre um risco sério e real de ver a sua generosa mas adormecida massa associativa cair numa descrença amarga e perigosa, quiçá suicida.

Quando em 1966 o FCB desceu de novo à 2ª divisão nacional de futebol, o grande presidente Luís Raimundo dos Santos − que tive o privilégio de conhecer e ter por amigo − protagonizou, em colaboração com muitos e bons Barreirenses, a “Festa da Unidade Barreirense”.
O 22 de Outubro desse ano foi, muito para além das expectativas mais optimistas, um momento inesquecível de crença e esperança na vida − agora quase centenária − do FCB.
E o FCB foi nessa época − pela 5ª vez − campeão nacional, regressando ao escalão maior do nosso futebol.

Será que a direcção actual, presidida por Manuel Lopes, tem a vontade e o élan, a têmpera e a crença, o saber e o engenho necessários para ultrapassar o momento de crise − grave − que hoje vivemos?
Gostaria de ver a minha pergunta claramente respondida e assumida pelos dirigentes que ajudei a eleger.
Como gostaria de ver os meus consócios acordar da letargia presente e contribuir com outro empenho e capacidade na revitalização − refundação? − do FCB.

Escrevi há algumas semanas: “Será apenas através de um contributo mais activo e alargado dos seus associados, do talento, criatividade, empenhamento e bom senso dos seus dirigentes, e da capacidade de diálogo e colaboração – solidária, harmoniosa, transparente e moderna – com a Câmara Municipal do Barreiro e com os agentes económicos da cidade, que o Barreirense poderá ultrapassar as graves dificuldades e constrangimentos actuais.
E prosseguir um percurso desportivo de mérito (na formação e na alta competição), um desempenho de relevo na sociedade Barreirense, um estatuto de utilidade pública tão legitimamente adquirido.
Caso contrário, não estarão criadas, em minha opinião, as condições mínimas para a prossecução de objectivos desportivos competitivos semelhantes aos actuais, e o Barreirense será obrigado a recuar para patamares bem menos ambiciosos, de alcance e consequências ainda muito pouco discutidas e consciencializadas pela imensa maioria dos Barreirenses”.

Ao longo de 96 anos, o Barreirense tem sabido manter um vínculo genuíno, claro e estratégico com o Povo do Barreiro, crescendo gemelarmente com ele, abraçando-o nos momentos de vitória e com ele sofrendo as vicissitudes e as desilusões das derrotas e dos insucessos.
Damos voz, alegria e identidade ao Barreiro e aos Barreirenses.
Somos parte da sua História.
O Barreiro orgulha-se de nós!

Hoje, dia de aniversário, lá estarei…
Conto com a sua presença, amiga e solidária.
Sei que algumas lágrimas espreitarão os meus olhos castanhos.
Sou assim!
Afinal… como tantos outros Barreirenses.

Força Barreirense!!!
Parabéns Barreirense!!!

Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)
Sócio nº 315 do FCB

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