O Fascismo nunca existiu?(Resposta a António José Ferreira)
Por João Medeiros*
Por Jornal Rostos
Por doloroso que seja para os cultores do “novo Portugal de Abril”, o estado de espírito geral vai hoje no sentido de reatar os laços com o passado e esquecer a irrupção “populista” de há três décadas. Após cerca de trinta anos de um unanimismo obrigatório na condenação do antigo regime, é hoje palpável o desejo duma reavaliação do Estado Novo e do seu expoente máximo, Salazar. “Romper com os tabus abrilistas” é hoje um impulso que lateja na cabeça de muito boa gente, não necessariamente de direita mas sensível aos argumentos desta. “Chamar ‘fascista’ ao regime de Salazar não será um conceito ideológico, sem rigor histórico?”
O democrata médio dos nossos dias está de pé atrás contra o “simplismo” de condenar os salazaristas como inimigos do povo. Nem gosta desse termo pejorativo de “salazarista”. Mais ainda: não embarca em condenações obrigatórias do próprio ditador. Por causa desse “maniqueísmo”, deixou-se arrastar no passado para atitudes de que hoje se arrepende. “Não me venham com a chantagem da resistência, das prisões e dos sofrimentos do povo! Não queiram obrigar-me a escolher campo, em nome dos vossos imperativos morais! A realidade tem muitas tonalidades e nem tudo se pode resumir a branco e negro”.
Sob um ar desapaixonado e objectivo, é a reabilitação do antigo regime que vai abrindo caminho. Não há que estranhar. Afinal, não era este o passo que faltava depois de partidos, governos, tribunais, imprensa, intelectualidade, terem chegado a acordo quanto ao carácter insuportavelmente caótico e irresponsável do movimento popular de 74-75? Levantada a represa, o rio da revisão histórica já pode correr livremente.
Ainda mais nesta época de eufórica corrida capitalista para novos “desafios”, quando o terreno aparece, pela primeira vez, desde há um século, limpo da oposição da corrente operária e socialista, que se agrupara em torno do marxismo. Entrado na maioridade, finalmente livre de coacções, o burguês pode agora olhar o mundo pelos seus olhos e sorrir envergonhado da sua ingenuidade juvenil de há quarenta anos, quando apelava ao “nosso bom povo” para se rebelar contra a “ditadura colonial-fascista”. Hoje, com um novo pragmatismo, conclui que nem o povo era tão digno de confiança como julgava, nem o regime era afinal tão odioso.
Perdem o seu tempo os que se escandalizam com este reencontro com o passado. É bem sabido que, em matéria de liberdades e conquistas sociais, a burguesia só aprende as lições da rua. E esquece-as depressa, senão lhe refrescarmos a memória. É a luta operária que está a faltar, não a pedagogia democrática.
João Medeiros
* Professor na Escola Secundária de Santo André














