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Quotidianos

Uma história de desencantarPor Matilde Antunes

Que monstro é este que está a estrangular a Alfredo da Silva? Monstros? Mas esta não deveria ser uma história realista? Ai, deixei-me confundir pelo meu próprio enredo! Pronto, pronto! Conto até dez, respiro pausadamente e tento serenar. Ah! Encontrei uma solução: as jovens decidem recolher assinaturas numa petição para solicitar às autoridades competentes (que elas ainda nem sabem quem são) uma nova avaliação do caso.

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Uma história de desencantar Por Matilde Antunes

Por Jornal Rostos

Hoje achei-me com veia literária e deliciei-me a imaginar as personagens do meu romance. Bem… um romance talvez fosse um empreendimento demasiado ousado para começar. Pensando bem, provavelmente só tinha matéria para me aventurar a escrever um conto. Isso! Um contozinho sempre ficava mais à medida de uma principiante. Até porque o enredo não era complicado: uma história juvenil de amizade e solidariedade. Pensei no caso de uma adolescente que, ao terminar o 6º ano, se vê perante o dilema de escolher entre manter algumas amigas, ficando na Escola Mendonça Furtado, ou reduzir a distância entre a sua residência e a Escola Secundária Alfredo da Silva, que os seus pais lhe recomendavam por ser uma escola de referência e ficar a um pulinho do centro do Barreiro, onde habitavam.

Tinha idealizado um estilo realista, salpicado de discursos animados e divertidos. Enfim, os ingredientes que tornassem apelativa a leitura para os jovens, já tão solicitados por passatempos electrónicos.

A minha heroína recordava as emoções de ter conquistado a admiração dos colegas, ao escrever eloquentes artigos para o jornal escolar, defendendo os animais, alertando para os problemas ecológicos ou para as barreiras arquitectónicas que ainda se colocam às pessoas com deficiência. Por outro lado, antecipava o encantamento de conviver com os mais crescidos, a possibilidade de almoçar em casa, a satisfação de fazer o percurso saudavelmente a pé, passando pelo Parque, e vislumbrava até, ainda que num horizonte longínquo, que também ela engrossaria os números da escola que mais alunos coloca no ensino superior.

Bem, até agora, tudo muito cor-de-rosa. Falta uma pitada de intriga. Ah, já sei. Quando a miúda, finalmente, abraçou a ideia de optar pela escola secundária e até já tinha convencido as amigas a acompanhá-la, surge um obstáculo incontornável a turvar a alegria dos bons resultados obtidos no final do ano lectivo. Não podia matricular-se na Alfredo da Silva. A rede escolar não permitia a abertura de turmas de 7º ano naquele estabelecimento. Perplexidade dos pais, indignação da filha que, esquecida já dos motivos que a tinham feito hesitar, queria concretizar a decisão tomada. Procuraram explicações, mas surgiram argumentos contraditórios: as escolas secundárias só podem leccionar o nível secundário de ensino, mas a Augusto Cabrita e os Casquilhos, que são escolas secundárias, vão oferecer 7º ano; não existe nenhuma escola de 3º ciclo na freguesia do Barreiro; a Augusto Cabrita tem a Abílio Mendes ao lado e os Casquilhos têm a Quinta Nova da Telha por perto, mas a Alfredo da Silva é que não pode receber turmas do 7º ano? A minha heroína não conseguia entender, as amigas não conseguiam entender, os pais não conseguiam entender…

Que monstro é este que está a estrangular a Alfredo da Silva? Monstros? Mas esta não deveria ser uma história realista? Ai, deixei-me confundir pelo meu próprio enredo! Pronto, pronto! Conto até dez, respiro pausadamente e tento serenar. Ah! Encontrei uma solução: as jovens decidem recolher assinaturas numa petição para solicitar às autoridades competentes (que elas ainda nem sabem quem são) uma nova avaliação do caso. Este movimento, que pretende revitalizar a freguesia do Barreiro, devolvendo à velha escola a população que lhe cabe por direito, conhece uma enorme adesão.

Alunos e pais, numa cruzada ímpar, desdobram-se em iniciativas: contactam a Coordenadora da Área Educativa, enviam requerimentos à D.R.E.L., mobilizam a comunidade…
Pelo caminho, descobrem que nada é linear e que, nos meandros da educação, nem sempre são considerados prioritários os interesses dos jovens ou dos seus encarregados de educação. Bem, para falar dos jogos de bastidores, já tinha que escrever o tal romance… e eu não tenho fôlego para isso.

Matilde Antunes
cidadã barreirense

20 de Junho de 2007

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