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Quotidianos

Amigos da Velha Guarda no BarreiroPor Fernando Almeida Reis

É que este grupo (de vinte e tantos) de velhos “Amigos da Velha Guarda”, anónimos por entre a gente, que bem podia ser denominado “Grupo dos 24” se outras pretensões houvesse para além do propósito que os chama à parada duas vezes por ano, têm apenas um vértice em comum no triângulo difícil das nodosidades da vida – recordar os velhos tempos em que as dificuldades da profissão.

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Amigos da Velha Guarda no Barreiro Por Fernando Almeida Reis

Por Jornal Rostos

Nestes tempos politicamente tão conturbados, em que a sociedade portuguesa faz jus às crescentes dificuldades vividas, causadas pela sempre crescente carestia de vida decorrente de uma nem sempre bem conduzida política nacional, e em que, por esse mundo fora, paira o espectro da guerra injusta alimentada pela ânsia desenfreada e ganância dos mais fortes e mais vorazes e mesquinhos seres humanos, que se julgam senhores absolutos do mundo e donos da verdade, para ele universal, visando apenas o lucro fácil obtido à custa do sangue vertido por países por onde estendem os seus tentáculos sugadores, ainda há quem, neste “lado desértico” de Portugal – assim classificado recentemente por alucinado espírito político que tem a obrigação de conhecer, e bem, geográfica e demograficamente o País que ajuda a (des)governar – se reúna, uma ou duas vezes por ano, que a fazenda não dá para mais, num jantar brindado pelo som nostálgico das guitarras a acompanhar o carpir nostálgico do fado, e à volta duma mesa se recordem trilhos duma sã camaradagem e frutificante amizade, cimentadas pelas dificuldades que passaram ao longo duma vida em defesa da Lei e da Grei.

Não são “espíritos núcleos de qualquer quadrilha de casaca” usando “brilhantes falsos e unhas em ovo” com “paradoxos na moleira” obliquando em “discussões de abstracção científica”, muito menos grupo do faz-de-conta ou quaisquer “Vencidos da Vida”, a julgarem-se os primeiros numa terra onde a primazia foi sempre e é, ainda hoje, uma questão de tenacidade e toilette. Nem qualquer assunto literário, político ou reivindicativo os move e une. E, nem por isso, ou por ausência disso, ficaram desguarnecidos do encanto, tão diferente do transmitido, habitualmente, por essa linha de snobs e gozadores eméritos de que se julgam únicos detentores tantos ilustres (e falsos ilustres) da nossa praça.
É que este grupo (de vinte e tantos) de velhos “Amigos da Velha Guarda”, anónimos por entre a gente, que bem podia ser denominado “Grupo dos 24” se outras pretensões houvesse para além do propósito que os chama à parada duas vezes por ano, têm apenas um vértice em comum no triângulo difícil das nodosidades da vida – recordar os velhos tempos em que as dificuldades da profissão de agentes de autoridade, que os envolveu, a alguns deles durante três longas décadas, fez cimentar os laços da verdadeira amizade com uma liga aglutinadora que jamais qualquer vicissitude ousará quebrar para desunir os seus elos. E tão mais salutar e nobre é, e será este propósito, quanto mais presentes estiverem sempre novos rostos seus seguidores nesta profissão árdua de defensores da “Lei e da Grei”, que uns abandonaram por imperativo da idade e outras abraçaram por devoção ao dever.

Honra seja feita aos promotores do evento, na pessoa do “sempre leal e invicto” Sargento Chefe Fernando José, que sendo daqueles que ainda tem muito a dar de si à nobre causa que abraçou, jamais esqueceu os velhos calcorreantes dos trilhos da justiça, com quem fez, lado a lado, no início da sua carreira, seculares horas de inesquecíveis e dolorosos patrulhamentos, pela dificuldade da logística então existentes. E honra lhe seja feita, porque o seu acto impede, por um lado, que esses velhos defensores do cumprimento da Lei caiam na sombra do esquecimento pelo lugar que as metamorfoses da vida lhes reservam e impõem no acumular do pó das prateleiras de um qualquer arquivo morto à espera do despacho final que lhes dite o fim definitivo, e por outro lado, porque faz vingar, nos mais novos, o propósito de que vale a pena continuar na realização destes eventos quando o seu propósito é nobre, livre e vinculado ao valor mais alto daquilo que se chama Camaradagem e Amizade.

Ao Restaurante Nostalgia em Vila Chã-Barreiro, na pessoa dos seu proprietário que nos cedeu o local para o programado repasto e nos brindou, com outro amigo, com uma sessão de fados ao vivo, o nosso abraço, sempre fraterno e leal, de reconhecimento. Aos presentes, que vale a pena continuar a investir na Amizade sem Fronteiras. Para os que não puderam vir fica, da nossa parte, a expectativa de que não se esqueçam que aquele lugar vago, neste deserto à beira-Tejo plantado, lhes pertence por direito.

Fernando Almeida Reis *

* Um amante da escrita, por paixão e convicção.

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