A HISTÓRIA SECULAR DO CAIS DE ALDEIA GALLEGA DO RIBA-TEJOPor José Bastos
A presidente e os vereadores da Câmara sabem que uma comunidade só tem futuro se preocupar com o passado e por isso têm recuperado todo o património do concelho. Chegou a hora de recuperar o velhinho Cais de Aldeia Gallega, cuja obra está a chegar ao fim e que brevemente será inaugurada.

Por Jornal Rostos
A Câmara Municipal de Montijo, está a executar uma grande obra na zona ribeirinha, no decorrer dessa obra, chegaram à conclusão que o cais necessitava de obras de conservação para que a médio prazo não caísse. Foi feito um trabalho notável com a colocação pedra a pedra à mão, com a ajuda de uma máquina, utilizando uma argamaça de cal, cimento e areia branca, recomendada pelo IPPAR. O trabalho foi acompanhado diariamente por populares que apreciam muito aquela obra que se está a fazer no Rio.
É minha convicção que em quase cinco séculos, o cais sempre que era reparado, sofria modificações, como agora acontece com alguns metros de prolongamento das muralhas para Poente, para que esteticamente fique mais equilibrado. Penso até que o primitivo cais podia não estar naquele local e ser construído em madeira.
É uma evidência que no século XVI, o Cais de Aldeia Gallega não tinha a configuração que tem hoje.
O Cais de Aldeia Gallega foi o equipamento mais importante para a vida do concelho durante séculos.
A Sede da Mala Posta foi inaugurada em Aldeia Gallega em 1533 e por aqui passava todo o correio e passageiros em barcos que atravessavam o Rio vindos de Lisboa e que atracavam no Cais de Aldeia Gallega, para seguirem para o Sul do país e para o estrangeiro.
Mas, não era a só a Mala Posta, era também todo o movimento do Alentejo para e de Lisboa, que passava pelo nosso Cais.
Todos os dias chegavam ao Cais dezenas de carros puxados por animais que transportavam pessoas e mercadorias e passavam em trânsito por aqui para atravessarem o Rio em barcos de uma margem para outra. Cerca de 10.000 carros e 50.000 pessoas por ano.
Aldeia Gallega era uma Vila muito importante, por ser sede da Mala Posta, por fazer a ponte de todo o movimento do Alentejo para e de Lisboa, mas também por ser local de passagem para estrangeiros que vindos de Espanha, queriam chegar a Lisboa, capital do país e uma das grandes capitais da Europa nos fins do século XV e século XVI.
Os Reis e a Corte quando iam para o palácio de Vila Viçosa, para a Falcoaria Real e propriedades do Sul ou quando iam a Espanha, participar em casamentos reais, também utilizavam o Cais de Aldeia Gallega.
Em 1709 o Padre António Carvalho da Costa, relatava que Aldeia Gallega, tinha um cais de cantaria dos melhores do Riba-Tejo, nove estalagens do melhor que havia no
Reino e dezoito botes, o que dá bem a ideia do movimento que passava pelo cais.
Em 1778 a Câmara de Aldeia Gallega enviou um requerimento à rainha D. Maria I, pedindo para que o cais fosse reparado porque estava na iminência de se degradar e a Câmara não tinha verba para o fazer. Chamavam a atenção da Rainha, para o facto de por aqui passar todo o movimento do Alentejo, reinos estrangeiros e as comitivas da Casa Real.
Na primeira metade do século XIX Aldeia Gallega sofreu uma grave crise que aliás se estendia a todo país, provocada pelas invasões francesas e por guerras civis. Em 1853 o Governo decretou que se ia construir o caminho de ferro e as obras tiveram o seu inicio em 1855.
Com a existência do caminho de ferro o movimento do Alentejo, dos estrangeiros e das comitivas reais, deixaram de se fazer por aqui. Muita gente pensou que com a crise generalizada e a perda do movimento do Alentejo, poderia originar a ruína completa da Vila.
A economia de Aldeia Gallega “bateu mesmo no fundo” e a população do concelho, nessa altura de cerca de 4.000 pessoas, teve que se mobilizar para sair do caos em que a Vila tinha caído. Fizeram das fraquezas forças e num espírito a que hoje chamamos de empreendorismo, sem pedir qualquer auxílio ao Governo, procuraram vender pelos arredores e em Lisboa os nossos produtos da agricultura e da indústria. Desde que se venda os produtos a economia desenvolve-se, porque há sempre quem os produza.
O êxito foi tal que no final do século XIX, já com cerca de 10.000 habitantes, Aldeia Gallega era a mais importante Vila do Riba-Tejo e o cais movimentava mais barcos que transportavam mais mercadorias produzidas no concelho do que aquelas que passavam em trânsito vindas do Alentejo.
Em 1908 a Câmara decidiu fazer uma grande reparação no Cais e na caldeira de limpeza do mesmo.
Na primeira metade do século XX, o concelho atingiu os 30.000 habitantes. Por essa época, já se pensava globalmente no Montijo, exportávamos cortiça para todo o mundo, azeite para o Canadá, E.U.A. e Brasil, enchidos para África, batatas e outros produtos da agricultura para a Europa. No centro de Paris estavam à venda ostras do Montijo.
Foi nesta época que o cais atingiu o máximo do seu movimento. Todos os dias atracavam dezenas de fragatas que transportavam os nossos produtos para Lisboa e para os navios que os levavam para o mundo inteiro. De Lisboa vinham fragatas a que chamavam faluas com produtos alimentares, ferramentas e outras encomendas para o comércio de Montijo. Existiam muitos barcos de aluguer e as maiores empresas tinham barcos próprios.
No principio da década de cinquenta do século passado, com o incremento do transporte rodoviário, o transporte de mercadorias com barcos à vela, começou a diminuir e no final dessa década deixou mesmo de existir.
Nos anos sessenta a Câmara mandou aterrar a caldeira de limpeza do Cais.
Depois do 25 de Abril de 1974, a Comissão Administrativa da Câmara aprovou por unanimidade uma proposta para que o Cais fosse aterrado, o que não aconteceu por falta de verba.
A memória colectiva da nossa comunidade, a nossa identidade e as nossas raízes mais profundas estão desde sempre ligadas ao Rio Tejo e ao Cais de embarque e desembarque secular de mercadorias e passageiros, fazendo ponte entre as duas margens.
A presidente e os vereadores da Câmara sabem que uma comunidade só tem futuro se preocupar com o passado e por isso têm recuperado todo o património do concelho. Chegou a hora de recuperar o velhinho Cais de Aldeia Gallega, cuja obra está a chegar ao fim e que brevemente será inaugurada.
José Bastos














