OS VELEJADORES DE ALDEIA GALLEGA-MONTIJOPor José Bastos
Por Jornal Rostos
Nasci perto do Rio Tejo, no bairro dos pescadores, travessa das postas, numa casa que já tinha pertencido pelo menos aos meus trisavós maternos. Os meus avós paternos, tinham uma casa com um bom quintal na rua das Postas, que tinha uma porta que dava para o esteiro dos primos, aterrado já há dezenas de anos e que fazia um “T” com o esteiro da quebrada.
Os verões da minha infância foram passados junto ao rio pelos muros das marinhas num percurso que ia desde o cais ao Seixalinho. Aprendi a nadar no esteiro da quebrada e ia todos os dias ao banho na ponta do muro. Os meus amigos eram quase todos filhos de pescadores. Por essa época as crianças durante o Verão andavam quase todas descalças e ocupavam os tempos livres na rua a brincar umas com as outras.
Sempre achei que o Rio Tejo, no estuário, tinha duas faces: uma quando estão os dias calmos e com muito sol o que o torna lindo e seguro, onde é uma maravilha navegar ou passear nas suas margens a outra é quando o vento sopra forte e as ondas revoltam os lodos tornando o rio feio e muito perigoso. Mete medo.
Sem as técnicas que hoje existem para prever o tempo que vai fazer os pescadores e marítimos que trabalhavam no rio, viviam dos conhecimentos adquiridos de geração em geração, em relação aos ventos, correntes e calas do rio e aprendiam logo de crianças como se manobravam as velas e o leme das embarcações.
O poeta Bulhão Pato, tinha amigos em Aldeia Gallega e por isso visitava com frequência a nossa vila, numa das visitas, quando vinha de Lisboa, no vapor, na carreira das 15horas, para visitar a família Mora, assistiu a um vendaval no Tejo e aproveitou para fazer uma crónica, num Jornal de Lisboa, com o título Marinheiros de Aldeia Gallega do Riba-Tejo- Um vendaval no Tejo..
A crónica que a seguir se transcreve é uma preciosidade literária, só possível por ter sido feita por um poeta com a qualidade de Bulhão Pato e dá bem ideia dos riscos que as centenas de homens corriam no Tejo em dias de vendaval.
“Sabbado, 31 de Janeiro do anno de 1885, o vento, desde a madrugada , soprava do sul, e caia bravio nas refregas. Era o Palmellão temeroso no Tejo.
Ainda assim, a nortada límpida, com ter o horisonte cristalino e a vaga azul rebentar franjada de espuma, não é menos perigosa.
Sobre as 2 horas da tarde, o tempo abrandou um pouco; todavia, o recalmão, muito mais pequeno que a rajada, denunciava, que o vandaval estava longe do termo.
As agoas do monte, arrebatadas e barrentas, tornavam a onda pesada e sombria. O mar era de rebentação, e, guardadas as proporções, como no mar alto.
O Tejo de cristal, em picando, morde.
O vapor das 11 da manhã não tinha feito a carreira entre Lisboa e Aldeia Gallega. Mestre Manuel Marques, o capitão, só em caso extremo deixaria de fazer a viagem das 3 da tarde.
Os passageiros, receiosos uns, decididos outros, aglomeram-se na ponte.As mulheres, forçadas a partir, conjuraram o medo, invocando os nomes de Santa Bárbara e S. Jeronymo.
De japona , calça e breste de oleado, o capitão do barco e desenganado marítimo, com o contra-mestre ao leme, como em vendaval de folga e alívio, ás 3 horas, largou do caes, e metteu a proa ao mar, em direcção ás alturas de Seixal. Queria tommar a margem opposta, d´onde o vento caía, e prolongando-se com ella, demandar a Ponta do Montijo e entrar para dentro.
O barco era forte, habilmente navegado; não havia sombra de perigo, apesar da cruêsa do tempo.
As nuvens, acastelladas no céo achatado, rebentavam em grossas, porém rápidas bátegas de agoa. O vento começou a recrescer. A rajada mais longa.
O vento, quando irritado, tem, nos paroxismos da cólera, saltos e bramidos de besta fera. Como ente vivo em lucta truculenta, o seu inimigo é quando lhe oppõe resistência; no mar, levantado em piramedes escumantes, o casco do navio que impelle, os mastros que verga, as velas que torna farrapos; no campo, os pinheiraes e os montados que sacode. Estala, arranca!
O homem, entre céo e mar, a labutar com o vento e as ondas, é mais valente do que campo da batalha, embora tenha o animo de César ou de Napoleão.
Quando havíamos feito proa ao Montijo, vimos por popa-única vela no mar!- um bote que vinha dos lados de Cacilhas, e seguia no mesmo rumo do nosso vapor.
- “Ou são uns náufragos, ou uns loucos aquelles homens!”- pensei eu commigo.
- “É o bote do Henrique do Relógio, e vem para Aldeia Gallega; aposto que é elle! Aquilo foi coisa, que não puderam aguentar a amarração!” –
--“Diabo!...” – acrescentou o passageiro, que proferiu estas palavras, olhando para o barquito, que corria, á flor da onda.
Traziam a véla nos segundos. Uma refrega pareceu por instantes mettê-los no fundo; apenas se via a ponta do mastro; o demais, em volta do bote, tudo era espuma em fumo.
Os olhos dos passageiros, que vinham em cima, cravaram-se ansiosos no bote, que appareceu de novo com a vela colhida e apenas um pequeno bolso.
Corriam á popa, isto é, no maior risco para uma embarcação descoberta.
O mestre, do alto da ponte, seguia com os olhos o barquito e disse para o rapagão de barrete e trajado de luto, que estava no tombadilho:
-“Aquelle é o bote de teu irmão.”
-É, sim, senhor!” -, confirmou o moço, com hombridade, mas visivelmente commovido.
Em todos os passageiros, crescia o interesse por aquelles homens, que estavam em apertadas condições.
O mar, passado um pouco o Barreiro, engrossava com a fúria da refrega. O nosso vapor jogava fortemente, de bombordo a estibordo. Agora, o bote tinha uma onda de popa e outra de lado. Augmentava o perigo.
Na véspera, por aquellas alturas, havia naufragado um barco, que ainda lá está no fundo.
O mestre falou para o machinista. O vapor principiou a diminuir a marcha. D´ali a pouco parou.
Espontaneamente, aquelle homem de coração ia acudir aos seus patrícios e camaradas, nas fainas marítimas.
Na ponte, o olhar attento para o bote, era uma bella e expressiva figura. A carnação forte e com um tom avermelhado como a dos hollandeses; maçãs do rosto salientes; boca vincada com firmêsa, e o beiço inferiror grosso; nariz enérgico; ventas um pouco dilatadas; olhar cristalino, bom, e com a espressão peculiar dos marítimos, penetrante.
Pôz-se á mão um cabo para dar reboque. O Barco, corrido pelo tempo, aproximava-se com grande rapidez.
Henrique do Relógio era, de facto, o dono do bote, e era elle, quem vinha ao leme.
Que timoneiro!
Mais dois homens compunham a tripulação. Esses tinham passado um cabo ao mastro, preso ao varão da escota, e estavam em pé ás adriças. O do leme, em pé também, ou antes numa posição quasi horisontal, os pés escorados no entreleito, fugindo á vaga, que ameaçava anegá-lo, tendo, de momento a momento, de dar ao leme, por esforço simultâneo do peito e dos braços, um impulso forte, para que eram necessários músculos retesados e rijos, como aço.
O vigor e a perícia do piloto eram taes, que a onda nunca enxovalhou o barco!
O cabo estava pronto e era o próprio irmão, que ia atirar-lh´o.
Elles perguntaram:
“-Há novidade?”
E recusaram o reboque.
-“Agora vamos bem!”-bradaram para nós.
Tinham supposto que houvesse desastre a bordo, e vinham prestar-nos auxilio, debaixo da sua tormenta, aquelles três valentes!
Nesse momento, um passageiro, rapaz que já tem corrido mundo, tirou o chapéo, e agitando-o, clamou com voz varonil:
-“Hurrah! Pelos marinheiros portugueses!”
Todos nós repetimos o brado, saudando os denodados marítimos.
O mestre mandou seguir o vapor devagar, olhando com ufania para os seus intrépidos patrícios.
Só entrando no Montijo e vendo o barco em boas condições, é que mandou andar a toda a força.
A pouco trecho, na grata convivência duma virtuosa família, tem por chefe o meu velho amigo Dr. Mora, á mesa do jantar, fazia eu esta narrativa interessante para conhecia os personagens.”
Era bom ,que todas as pessoas que aqui residem actualmente, soubessem que os nossos antepassados foram gente inconformada, com coragem, empreendedora e sempre disponível para assumir riscos.
As escolas da nossa comunidade deviam ensinar aos nossos jovens a história do nosso concelho.
José Bastos














