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Quotidianos

O Sector Imobiliário e as Alterações ClimáticasPor Luís Rodrigues

Não basta que se revejam Planos Directores Municipais anunciando “o melhor dos mundos possíveis”, quando esse leque de possibilidades se estreita ao ponto de não reconhecer que é o próprio mundo que está em mudança. Para disfrutar o rio não é necessário morar em cima do rio!

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O Sector Imobiliário e as Alterações Climáticas Por Luís Rodrigues

Por Jornal Rostos

No dia mundial do Ambiente, celebrado a 5/6/2007, foram vinculadas por credíveis organismos internacionais algumas notícias alarmantes confirmando a cada vez maior probabilidade de aumento da subida do nível médio das águas do mar – nomeadamente, o 4º relatório publicado pelo Painel Intergovernamental das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, acessível através da internet no endereço www.ipcc.ch.
Em Portugal, a Quercus alertou igualmente para o facto: a verificar-se um aumento do nível médio das águas do mar de 4 a 6 metros em 33 anos, ficámos a saber que as zonas da Baixa de Lisboa e Porto, podem correr o risco de desaparecer.
Deduzível deste facto, outro parece evidente: ao mesmo nível da Baixa de Lisboa ou Porto, encontram-se várias zonas destas respectivas cidades (Alcântara, Parque das Nações, Foz do Douro, etc.) e como tal, é óbvio que também estas (e muitas outras cidades ribeirinhas) se encontram em risco – senão de submersão, pelo menos de uma maior sujeição ao risco de inundações.

As condições sociais e económicas que permitiram o desenvolvimento urbano destes locais num determinado contexto histórico, não podem ser criticadas arrogantemente à luz dos conhecimentos presentes. Assim, há que aceitar este condicionamento, reconhecendo-se que pouco se poderá fazer hoje para modificar aquilo que outrora foram inserções topográficas justificadas.
A preservação ou salvaguarda de monumentos e conjuntos arquitectónicos para gerações vindouras através de operações de remoção e relocalização em larga escala, parece claramente afastada tendo em conta os elevados custos económicos necessários para o efeito (a probabilidade da UNESCO proceder connosco da forma como procedeu com o Templo de Abu Simbel no Egipto, parece claramente afastada). Desta forma, resta-nos apenas aprender a reconhecer as alterações do mundo, adaptando a prática urbanística urbanística em consonância com as mesmas.

Contudo, parece subsistir ainda uma atitude de inércia em relação às consequências dessas alterações – a qual se pode constatar na irresponsabilidade que alguns agentes urbanísticos e o sector imobiliário tem perfilhado perante os constantes avisos de organismos internacionais em face das galopantes alterações climáticas, ou seja: continua-se a promover o incentivo à construção (nomeadamente habitação) próximo de zonas ribeirinhas como uma mais-valia e uma amenidade quando nada disso corresponde à realidade. Muito pelo contrário.

Se o processo de avaliação imobiliária fosse rigoroso, tais externalidades negativas deveriam ser depreciadas na aferição de valor do bem imóvel em causa. Ora, nada disso acontece, verificando-se ao invés, que o sector imobiliário português (principalmente aquele que se processa nas Áreas Metropolitanas) aposta em três factores de valorização perfeitamente irracionais:

1) Os promotores imobiliários privilegiam a localização de empreendimentos urbanísticos em zonas baixas, confinando com zonas ribeirinhas (como tal, mais sujeitas a inundações e aos efeitos colaterais das alterações climáticas).

2) O investidor/morador aposta na aquisição de imóveis economicamente dispendiosos não tendo em conta as inconvenientes características topográficas e geológicas dos locais onde se inserem.

3) Os técnicos e o mercado imobiliário premeiam projectos arquitectónicos que se subjugam às inconveniências dessas localizações inadequadas.
Em qualquer um dos três factores precendentes se pode enquadrar o exemplo paradigmático do projecto urbanístico “Alcântara XXI” em Lisboa (no qual participam renomados arquitectos): localizado numa zona baixa referenciado pelo próprio PDM de Lisboa como área de elevado risco sísmico e sujeita a inundações, um local onde o preço médios das fracções para habitação é elevadíssimo e finalmente, um projecto (Condomínio Alcântara-Rio) premiado com uma Menção Honrosa do Prémio Valmor em 2003. Incompreensível!

Dir-se-á que esse reconhecimento é atribuído apenas ao mérito da obra isolada (a qualidade estética da arquitectura, a sua boa construção, etc.). Obviamente, este tipo de argumento não pode ser aceite por uma sociedade exigente que deve tomar o seu bem-estar como uma soma de múltiplos critérios cada vez mais complexos e abrangentes. Faz algum sentido premiar um belo lifting arquitectónico num corpo urbanístico que padece de doença terminal?
E não se pense que esta negligência é apanágio apenas do mercado que decorre entre agentes privados; é o próprio Estado que dá o pior dos exemplos quando permite implantar em pleno Cais do Sodré (ao mesmo nível altimétrico da Baixa), a Sede da Agência Europeia de Segurança Marítima – um conjunto de edifícios que, daqui a alguns anos, estará tudo menos seguro. Incompreensível!

Contudo, é necessário que mais uma vez não nos limitemos a olhar para as inúmeras intervenções pontuais de Lisboa ou Porto como as únicas marcadas com os estigmas da irresponsabilidade e da ignorância: um pouco por todo o país, são raros os exemplos de requalificação urbanística que apresentem índices de construção moderados nas zonas ribeirinhas, acompanhados da consequente adequação funcional dos seus usos.
“Devolver a cidade ao rio” tem sido uma das frases mais utilizadas por técnicos e políticos que pretendem requalificar urbanisticamente os locais em que intervêm; mas ao invés de epíteto, essa frase tem-se vindo a revelar cada vez mais, um epitáfio: a “devolução” da cidade ao rio, implica quase sempre densificar as zonas ribeirinhas com mais construção (nomeadamente com usos habitacionais).

É óbvio que não se deve pretender tornar as zonas ribeirinhas em desertos, destituídos de vida social; o que é necessário, isso sim, é dotar estas zonas de espaços de lazer e fruição pública ou equipamentos com alguma intensidade de utilização, mas diminuta intensidade de construção; por exemplo, através do predomínio de bares, restaurantes, feiras, espaços verdes, armazéns, indústria não poluente, ateliers, etc.
Afigura-se urbanisticamente muito mais lógico implementar este tipo de usos ao pé do rio, do que habitação ou equipamentos mais dispendiosos e relevantes (enquanto os primeiros podem ser mais facilmente removidos e expropriados em caso de necessidade ou urgência, esta intenção revela-se impraticável sempre que estiverem envolvidas centenas de fogos habitacionais em fracção horizontal ou equipamentos mastodônticos e emblemáticos).

Não basta que se revejam Planos Directores Municipais anunciando “o melhor dos mundos possíveis”, quando esse leque de possibilidades se estreita ao ponto de não reconhecer que é o próprio mundo que está em mudança. Para disfrutar o rio não é necessário morar em cima do rio!
Enquanto não se equacionar o urbanismo e o mercado imobiliário num contexto abrangente e à escala global, é óbvio que Portugal, continuará a prosseguir um caminho autista que em nada beneficiará os portugueses. Até lá, “pensar global e agir local” não passará de um mero slogan inconsequente.

Luís Rodrigues
Arq.Urbanista
cidadela@gmail.com

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