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Quotidianos

Arte Contemporânea (1)Arquétipo insolúvel da Verdade

Uma arte que não inquiete e não suscite dúvidas está perdida no tempo e nada de novo adianta ao mundo.

A arte é sincrónica e não meramente diacrónica. A arte suscita o tempo e, não só o suscita como o realiza. A arte pergunta acerca da realidade do real.

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Arte Contemporânea (1) Arquétipo insolúvel da Verdade

Por Jornal Rostos

Fiz recentemente uma exposição de pintura na Biblioteca Calouste Gulbenkian de Mação, sob o título “Ereignis: o ser e o acontecer” .
Essa mostra constituía parte do acervo de telas que designei por , “
A Visão do Caos I e II ”, que haviam sido expostas distintamente em dois momentos, respectivamente na Galeria Santiago em Palmela e no
Edifício Central da Câmara de Lisboa . Além disso, mostrei pela primeira vez ao público 47 trabalhos de papel sobre epvc que formam o núcleo central do projecto “Ereignis”.

Acontece que esta exposição levantou grande celeuma; houve macenses que se me dirigiram pessoalmente dando-me, sinceramente, os parabéns, houve quem escrevesse críticas virulentas.
Senti-me muito honrado por isso. O pior que pode acontecer a um artista é a formalidade morna e cinzenta de expressões como, “está muito bem, felicidades”.
Uma arte que não inquiete e não suscite dúvidas está perdida no tempo e nada de novo adianta ao mundo. A polémica não faz um grande artista mas não houve grande artista que não tivesse gerado polémica. Estas linhas formam, portanto, um questionar acerca da arte contemporânea e um situar da minha pintura nas grandes correntes artísticas hodiernas.

De facto, a grande aventura que constitui a arte contemporânea fez-se por sucessivas rupturas, de vários modos e por diversos movimentos. Todos contra o academismo formal das grandes escolas de pintura que se foram desenvolvendo desde o Renascimento até ao dealbar do sec. XX. Não se tratou de uma destruição, outrossim de uma nova cosmovisão, a do fim da Modernidade e a do princípio de algo designado por “pós-modernidade”.
A pluralidade e a idiossincrasia dos movimentos vanguardistas contemporâneos têm, no entanto, algo de comum, a saber: a questão acerca do que é o real e a problemática das linguagens plásticas sugeridas.

Se, como Kant mostrou de modo definitivo, o real não existe fora de nós e das “estruturas apriori do pensar”; então, somos nós que o pensamos, fazemos e representamos. A Terra já só não está no centro do Universo, como é um grão de areia perdido no incomensurável Cosmos. O homem já só não é um descendente do macaco como não controla as suas pulsões (Freud). Deus está morto (Nietzsche).
Ou seja, já não existem respostas para as três questões fundamentais: o que é o Mundo, o que é o Homem, o que é Deus?

Se, como diz Heidegger vivemos no tempo da morte da metafísica, caberá à arte fazer renascer uma nova metafísica. De facto, cada época é presentificação do presente. A arte vive deste enigma inaudito; sendo historial e filha do seu tempo, a obra de arte nunca é um objecto opaco pertencendo a qualquer época, porque ela cria sobretudo uma circunstância do mistério que é transversal ao próprio tempo. A arte é sincrónica e não meramente diacrónica. A arte suscita o tempo e, não só o suscita como o realiza. A arte pergunta acerca da realidade do real.
Por isso, como diz a Fenomenologia, a arte deixou o campo da Estética e o paradigma fundador da Beleza, para entrar no terreno da Ontologia e no arquétipo insolúvel da Verdade. A arte é Evento (Ereignis). A arte não sendo uma actividade teórica, faz o real e realiza o pensamento: é Ontologia em acto.
Então, regressamos à questão da linguagem, ou da autonomia das metalinguagens plásticas, perguntando com Martin Heidegger: “Porquê os poetas nestes tempos de tristeza? Porquê o pensamento nestes tempos de saber? O que é pensar? O que é nomear?

Rui Monteiro Leite, Vale do Lobo, 2007.
(www.ruimonteiroleite.com)

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