Barreiro: o desalento do CentroPor Luis Rodrigues
A cada mudança de executivo camarário, alardeiam-se exposições e debates sobre requalificações urbanísticas. Não é que eu esteja contra esses eventos: muito pelo contrário. O problema é que a equidade de tratamento e atenção que deveriam ser dadas às ideias dos cidadãos barreirenses (anónimos ou não) nestas matérias, tem sido permanentemente preterida em detrimento das ideias de instituições e sumidades (nacionais e internacionais) a quem se recorre para pensar pela colectividade – colectividade essa que se pretende seduzida por uma máquina propagandística refinada.

Por Jornal Rostos
Um dos principais exemplos dessa propaganda urbanística sucedeu com o malogrado Masterplan: um projecto medíocre e facilmente refutável mas o qual, nem por isso deixou de ter o acolhimento devido por parte das eminências pardas que dirigem o planeamento urbanístico da Câmara Municipal do Barreiro através de uma desproporcional difusão publicitária. Ora, tendo a iniciativa do projecto sido despoletada pela Quimiparque, duas opções se colocavam: ou o Município acolhia aquele projecto particular da mesma forma que acolhe qualquer outro (ou seja, cumprindo os procedimentos administrativos formais, dispensando qualquer espécie de propaganda), ou pretendendo filiar-se à ideia sugerida, teria pelo menos de comungar da mesma e defendê-la até ao fim como um contributo importante para os melhores interesses da cidade.
A posição dúbia que a Câmara tomou nos vários debates em que se discutiu o Masterplan, demonstrou-nos uma hipocrisia própria de instituições inoperantes e cobardes: se a coisa corresse bem, o projecto passava, o benefício financeiro/imobiliário era colhido pela Quimiparque e a glória da iniciativa poderia ficar para a Câmara; se a coisa corresse mal (como correu), a edilidade assobiaria para o lado numa pose neutral e angelical, dizendo nada ter a ver com o projecto apresentado (já que o seu único interesse teria sido promover o debate), bastando-lhe esperar que a Quimiparque voltasse de novo a “atirar o barro à parede”.
Poder-se-á dizer que tudo isto são águas passadas; que o Município do Barreiro agora tem um rumo mais pragmático e opinativo em relação às várias propostas urbanísticas que têm surgido; e uma delas, diz respeito à requalificação do “Centro do Barreiro”, coordenada pelo arquitecto Joan Busquets.
Em relação aos Centros e Periferias dos “Barreiros” (concelho e cidade), já muitos contributos e ideias se lançaram para a praça pública: eu próprio o tenho feito desde há vários anos em vários artigos de jornal, assim como tantos outros barreirenses. Foram até agora realizados debates sobre o muito que todos nós dissemos?
O que poderia revelar-se apenas como uma atitude de inércia por parte da Câmara Municipal do Barreiro em relação à opinião dos seus cidadãos, tem-se revelado nos últimos tempos, um exercício patético, ignorante, servil e deslumbrado de uma instituição que, não sabendo pensar e decidir com os seus munícipes acerca daquilo que quer, tem de adjudicar ideias e opiniões às mentes iluminadas do panorama arquitectónico nacional e do star-system internacional.
No caso da intervenção urbanística de Joan Busquets, e sem pôr em causa o mérito do arquitecto, parece-me a mim que a montanha pariu um rato: quando pensava que se iria discutir a requalificação urbanística do “Centro do Barreiro” (proposta de zonamento, requalificação ambiental, dinamização económica, etc.), eis que sou confrontado apenas com uma mera requalificação arquitectónica do Mercado 1º de Maio, abrangendo-se igualmente nessa requalificação, a área do Parque Catarina Eufémia; ora, mesmo que este Parque precisasse de alguma intervenção urgente (algo que não necessita) não seria essa, uma tarefa para arquitectos paisagistas? Talvez não, porque neste país de betão, ninguém parece querer dar protagonismo a essa espécie rara de indivíduos, empenhada em estragar ou diminuir aquilo que se considera (erradamente) ser a melhor forma de obter rentabilização económica num empreendimento imobiliário, ou seja: apostar exclusivamente em construção.
Assim, a pomposa e anunciada requalificação do Centro, restringiu-se ao anúncio de uma mera intervenção arquitectónica/paisagística que em tudo me pareceu semelhante ao triste episódio Parque Mayer e no qual se envolveu o arquitecto Frank Gehry: “Câmara sem dinheiro contrata arquitecto estrangeiro famoso para deslumbrar a população; projecto de arquitecto famoso não se realiza; resultado final: Município gasta 2 milhões de euros em estudos urbanísticos que não servem para nada”. Quererá o Barreiro protagonizar uma versão pindérica da novela lisboeta?
Em alternativa, porque não dinamizar concursos para jovens arquitectos, paisagistas, escultores, economistas, etc., nos quais estes pudessem expor as suas ideias e a população fosse convidada a dar a sua opinião sobre qual a melhor solução a adoptar? Talvez desta forma, o resultado final fosse mais participado e consensual – e bem mais económico.
Enquanto os Orgãos Municipais, representativos dos interesses públicos, não souberem ouvir e decidir com os concidadãos, arriscam-se a dar de si a imagem de instituições subservientes que, longe de querer discutir os destinos do concelho, pretendem apenas assegurar o papel de meros intermediários (neutrais e passivos) entre aquilo que consideram ser as ideias iluminadas provenientes das elites universitárias e empresariais e as ideias ruidosas e desprezíveis provenientes do povo ignorante que governam. Esta postura tem obviamente de ser combatida e denunciada com toda a veemência.
Ainda em relação à requalificação dos centros urbanos, o Sr. Secretário de Estado de Ordenamento do Território, segundo o jornal “Público”, terá afirmado num Fórum Autárquico em Vila Franca de Xira que o novo aeroporto deverá servir como estímulo para a reabilitação dos núcleos de cidades como o Barreiro, Vila Franca de Xira, Moita e Montijo, devendo estas, estabelecer igualmente estratégias de protecção de áreas envolventes.
Será que li bem? Será que um responsável político (ainda por cima, com formação técnica) pensa realmente que as coisas se processam desta forma? Ou seja, lança-se um bife à alcateia e espera-se que esta tenha o discernimento de o confeccionar, qual refinado Ratatouille? Só pode ser piada. Mas piada é grande parte daquilo que se tem feito e pensado em relação ao urbanismo neste país. O espectáculo degradante que continue para mal da nossa qualidade de vida…
Luís Rodrigues
Arq.Urbanista
cidadela@gmail.com














