A Morte fica-vos… mais ou menos!Por Vasco Correia

Por Jornal Rostos
A Morte assusta? Confesso que, a mim, sim. Morrer não é uma coisa que me agrade. É, no mínimo, chato. Exemplo: acordamos às 07.00h, banho, pequeno-almoço, saímos de casa, entramos no carro e…morremos! Ainda nem são 08.00h! É coisa para nos estragar o resto do dia. Porquê? Simples. Morto, sou capaz de não chegar a horas ao emprego e o meu chefe já não vai acreditar que morri outra vez. A primeira ainda passou, mas a mesma desculpa duas vezes no mesmo mês é capaz de achar estranho. O gajo não é parvo. Depois faltamos ao almoço com a gaja boa do escritório, não entregamos o filme no Vídeo Clube, falhamos o Preço Certo, o Telejornal e a merda que dá depois e não passeamos o cão que, gordo que nem um urso mesmo antes de hibernar, mal arrasta a cauda quanto mais um ser humano. Em vez disso passamos o dia e a noite numa igreja enfiados num caixão a ouvir a malta a soluçar – consequência do riso ou choro, dependente da vida que o leitor levou. Depois disso, lá vamos para o cemitério e somos “arrumados” conforme a nossa condição social. Em vivo, eras pobre? Vais para um buraco no chão. Eras rico? Vais para um gavetão, que é uma espécie de T0 a melhor preço, com áreas não muito diferentes da oferta habitual.
Mas há questões que se colocam. Há gente que pergunta: há vida depois da morte? Quem é que nos vem buscar? É a tal figura sinistra com traje preto franciscano, e uma foice de fazer inveja ao PCP? Somos julgados pelos pecados e boas acções? O que é que é preciso fazer para repararem que o Manoel de Oliveira já faleceu? Reencarnamos? Em que altura do texto é que este macaco vai parar de fazer perguntas? Existe o Céu e o Inferno?
A minha questão é diferente. Será que quando morremos mantemos a mesma roupa que tínhamos na altura da morte? Eu atribuo a esta pergunta, de zero a dez, nota 9, numa escala de importância. Isto porque, quando me perguntam como é que gostaria de morrer (assunto pertinente que surge, habitualmente, ás 06.00h de Domingo enquanto alguém me segura a cabeça enquanto regurgito), digo sempre que gostaria que fosse a dormir, sem sentir nada. Ora, nessa perspectiva, não me apetece nada passar a eternidade de calças de pijama enfiadas nas meias - uma delas com o elástico partido - e t-shirt da Telecel, ou de uma qualquer participação numa maratona que se realizou, em ‘93, no Bairro ou na Freguesia. Imaginem conhecer o grande Henrique Santana ou o Ayrton Senna, naqueles preparos!
Morrer no Carnaval, imagino, também não deve ser muito positivo. Chegamos aos portões do Céu: “Mulher Maravilha???!“, “Não. Zé Carlos.” E depois é só esperar que o Super-Homem, se morreu, esteja no Inferno, porque, caso contrário, vai ser uma eternidade muito, mas mesmo muito, longa…!
Os mais religiosos podem dizer: “Ah, mas isso não é assim. A nossa alma é uma luz e quando morremos é isso que fica. Apenas a luz da nossa alma.” Até podem dizer isso, mas eu contraponho com um facto que não podemos escamotear. Facto de tamanha importância que não dá espaço a qualquer outro argumento. E o facto é que isso é estúpido.
Por isso hoje, quando me vou deitar, visto o meu fato mais caro a camisa mais fashion, os sapatos última moda e durmo na ânsia de, se me der um ataque fulminante durante o sono, que o mesmo aconteça à Soraia Chaves. Lá nos encontraremos. Eu de Hugo Boss. Ela de calças de pijama dentro das peúgas - uma delas com o elástico partido - e t-shirt da 1ª Maratona da Casa do Povo de Fanhões…
Vasco Correia














