O Mundo Cor de Rosa do ME (II): O role PlayPor António José Ferreira

Por Jornal Rostos
Perante os últimos desenvolvimentos do Tema: “Indisciplina e Violência nas Escolas”, com a chamada a Belém do Procurador-Geral da República,
a equipa do Ministério da Educação decidiu-se, ou foi aconselhada a decidir-se, por uma inflexão táctica ( não digo estratégica, porque tal coisa parece não existir). A Srª Ministra, que ainda há poucos dias “aconselhava” aliás, desrespeitosamente, o Sr. Procurador-Geral a “preocupar-se com a criminalidade a sério” e afirmava ser “ a Escola o lugar mais seguro para as crianças e os jovens”, pois se trata de “um espaço controlado”, logo secundada pelo inefável senhor Albino da Confap que invectivou com acinte, por várias vezes e ao vivo ,o Ministério Público pelos “crimes que não investiga e deixa prescrever”; para além da dupla tipo “ Dupond et Dupont” de Secretários de Estado que costumam jogar, um na truculência, outro, no registo sibilino, aliás, em nítida adaptação às características físicas e quiçá, psicológicas de cada um deles, e todo o restante set do Ministério, parecem ter trocado a orquestra já em nítida cacofonia, por uma técnica mais modernaça, o role play, que consiste numa distribuição artificial de papéis que permite treinar debates, ao assumir posições previamente distribuídas, testando a sua eficácia, no que pode ir do “polícia mau / polícia bom”, ao “ advogado do diabo”.
Temos, então, que a Ministra passou da negação, ou da postura de “aconselhar” o Procurador-Geral, à afirmação de que os dados por este tornados públicos: mais de 400 (!!!) armas apreendidas a alunos em Escolas, com, por exemplo, pistolas apreendidas a miúdos de 6 anos (!!!),
“ não a surpreenderam”; dando de barato que parece ser difícil que algo surpreenda a Sr.ª Ministra, não se entende porque terá ela desvalorizado as afirmações iniciais do Sr. Procurador. Os Secretários de Estado, depois de um deles ter tentado circunscrever o fenómeno aos tais “ bairros e zonas problemáticas” e talvez por o conjunto da população ter percebido que o Carolina Michaëllis não fica em nenhum desses “bairros”, nem em alguma dessas “zonas”, acabaram por ser enviados noutra missão, a de amedrontar os Executivos das Escolas “recalcitrantes” e a de ameaçar os professores contratados com a não renovação dos contratos, caso falhe a “Avaliação simplificada de Desempenho”: caldeirada de atropelos, omissões e ilegalidades, que tem o condão de não respeitar, nem a lei que supostamente vigorava, nem a que supostamente vigora, num acto de chantagem pública, que deveria envergonhar qualquer poder de um Estado democrático mas que, pelos vistos, não envergonha este .
Fizeram entrar em cena um novo protagonista que, até agora, tinha estado na penumbra: o Presidente do Conselho de Escolas, órgão criado pelo Ministério como “ câmara de eco” de si próprio, uma vez que é constituído por um conjunto de Presidentes de Conselhos Executivos que estão, por isso, na dependência funcional e hierárquica directa do Ministério. (Que raio de Conselho esse ! ? Que tipo de autonomia poderá ter ? ! ).
Esta figura, agora revelada na sua plenitude, vem pegar na deixa onde ela tinha ficado e fala numa “campanha de empolamento” e na criação de um
“ ambiente de histeria”, ou seja, retoma o papel ( role ), na parte da peça (play), em que os protagonistas anteriores a tinham deixado. Note-se que o estatuto dos personagens e dos intérpretes, tem vindo a deslizar no plano inclinado da hierarquia; já estamos em plena “ tropa fandanga”, na vã pretensão de resguardar do fogo, o que já foi esturricado; ou seja, são “sopas depois do almoço”.
Para ilustrar, em contra-exemplo, o que este senhor acabou por reiterar, o já velho “ deixa pr’a lá / vem pr’a cá / o que é que tem? / eu não estou fazendo nada, você também !”, do tal acervo de episódios do meu espólio pessoal de 31 anos de professor, posso contar mais um :
Um aluno do 10º ano, mas já com 19 anos, (quando o “normal” é 15- 16),
dos tais “ problemáticos”, com história de agressões a funcionárias e a colegas, andando “picado” com um jovem professor que lhe fazia frente (não, não era eu pois, nesse tempo, já não era jovem !) , decidiu levar para a escola uma pistola que se destinava a “ acagaçar” o referido professor. O caso foi denunciado e a pistola foi entregue ao Conselho Directivo – ainda foi no tempo dos Directivos; agora designam-se por Executivos – numa operação típica daquele afanoso nominalismo em que Portugal é fértil e que já vem de trás, como se a mudança dos nomes, mudasse as coisas, sabendo todos de antemão que a intenção nem sequer era essa; mutatis mutandis, as Colónias passaram a Províncias Ultramarinas, a PIDE passou a DGS, a Censura passou a Exame Prévio. Enfim , “ nem as moscas mudaram” !
Que pensa o leitor que aconteceu? Que o caso foi participado e a arma entregue à Polícia ou ao Ministério Público?! Não, caro leitor, claro que não !!! Chamou-se o rapaz ao Gabinete do Directivo e foi-lhe dito:
“ - Eh pá, tem mas é juízo, leva esta porcaria para casa e deixa-te de brincadeiras estúpidas!” – E assim foi “resolvido” mais um caso, à “boa” maneira da Escola portuguesa ficando, assim, no roll daqueles que como Eduardo Lourenço diz do fascismo, nunca existiram. Como este, inúmeros outros, que não chegam às estatísticas porque não são participados, independentemente da lei o obrigar ou não; o problema não está na lei, o problema está na prática. A este propósito e sem querer enfastiar o leitor, não posso deixar de recorrer a mais um grande mestre que, afinal, sempre nos serve para alguma coisa: Descartes, no Discurso do Método (1637) avisa que a pluralidade das leis contribui para o seu não cumprimento; mais vale poucas e boas, do que muitas e ineficazes, quando não “tenderem todas para o mesmo fim”; e os casos não são participados, não apenas por temor de eventuais represálias, até da própria hierarquia da Escola, (uma vez que se fica com a “imagem manchada” e isso é susceptível de, no caso dos professores, os prejudicar na carreira e, no caso das Escolas, de as deixar ficar mal na “ fotografia” que o Ministério tem delas). De modo que o caso costuma ser “resolvido”, “varrendo para debaixo do tapete”; a isto acresce, o autêntico calvário burocrático que as participações das ocorrências acarretam, o tempo e a energia que consomem, a maior parte das vezes, com fracos ou nulos resultados e, como é natural, e dizia o poeta, “ um homem,” ou mulher,” também se cansa”, gerando mais do que um sentimento, a evidência da total impunidade, donde se pode inferir que a vítima sofre um duplo castigo.
Ainda podemos considerar o pano de fundo psico-cultural de tudo isto: em Portugal execra-se não o conflito, mas o seu reconhecimento; é raro e até tivemos exemplo disso na mais recente quase guerra civil de há pouco mais de 30 anos, que os que só por acaso e por pouco, não se mataram, não passem, de imediato, às “palmadinhas nas costas”, ou seja e para recorrer a uma nova opinião avalizada, é o fenómeno da “ não inscrição” ( José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de Existir), e porque “ a vida sem viver é mais segura, é o medo que nos salva da loucura”.
P.S. – Don’t forget : Think Pink !
António José Ferreira
Professor do Ensino Secundário














