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Quotidianos

É a vida...Por Vasco Correia

O tempo passa a correr. É inegável. Se o leitor tiver 20 anos, achará que eu estou demente, se tiver 30, está a dar-me razão, se tiver 40 não só concorda como está a chorar e se tiver 153 e ainda estiver vivo ou é o Manoel de Oliveira ou uma tartaruga das Galápagos. Mas a vida é isto. É ser novo, menos novo, velho, ainda mais velho.

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É a vida... Por Vasco Correia

Por Jornal Rostos

É viver. É ser filho, neto. É ser pai. É ser agredido, aos 85 anos, por um miúdo de 16. É ser primo, tio, irmão. Ser cão, burro, camelo. É estar á espera que a mulher acabe de conversar para irmos para a caixa pagar as compras. É ser namorado, marido. É estar junto. É viver. É cheirar mal, cheirar bem. É poder cheirar. É defecar após uma noite de copos e levar o vizinho de cima a perguntar á mulher se não lhe cheira mal. É ter 20, 30, 40, 80 anos. É definhar sozinho num lar. É estar com alguém. É estar sem ninguém. É colar a sola de um sapato. É partir um prato. É cozinhar, comer, beber. É beber e fumar. É adoecer. É melhorar. É piorar. É tentar vencer o que não pode ser vencido. É perder. É ver. É sentir os outros. É achar que ninguém é melhor que nós. É ter a certeza que alguém está pior que nós.

É odiar a vida e desejar a morte. É não morrer. É guardar o IRS para o último dia. É ler o jornal. É já não conseguir ler. È ver que podíamos ter ido mais além. É ter medo de ir mais além. È querer. É fugir. É enfrentar. É mandar á merda. É dizer é. É dizer não é. É faltar. È estar. É desiludir. È surpreender. É arrepender. É escrever frases curtas começadas por É, numa página de word. È estar com vontade de ver alguém. È estar com vontade de não ver ninguém. È gozar. É errar. È ajudar a levantar. È deixar de falar. È perdoar. É magoar. È fracassar. È ouvir o choro de um recém nascido. È alegria. É ensinar. È passar. È bater com o dedo pequenino do pé na base da cama. É gritar foda-se! É pedir desculpa pelo palavrão. È chegar atrasado ao trabalho. È sair tarde como o caraças. È o fim de semana. É a família. É pescar. É ter fome. È saciar essa fome.

È ver a nossa vida noutra vida. É odiar a morte. É crer em deus. É odiar deus. É ir á missa. È dormir na missa. È não dormir, durante a missa, no ombro de alguém que pode vir a escrever isso mais tarde. É sair da missa com o ombro doído. É conduzir. È infringir as regras de transito. É achar que só acontece aos outros. É ser os outros. È andar á boleia. É ter medo de já ser tarde. È ter medo de arriscar. É não ter uma vida boa. É trabalhar. É sofrer. È querer mais. È não ter mais. É culpar. È estar no café. È ser irresponsável. È ser diferente. É ser anti-social. È dar tudo para não ser o ser. É querer ser os outros. È ter inveja. É ser invejado. È beber um sumol. É ver a lua. È sentir o sol. É querer o mundo. É ter talento. É não ter cunhas. É amar quem sempre se quis. É ser feliz. É ler um livro. É ouvir música. É cantar. É dançar. É arrastar móveis ás três da madrugada e deixar o vizinho de baixo sem dormir. É ser o vizinho de baixo. É sentir paixão. É ser rejeitado. È andar de bicicleta. È esfolar os joelhos. È levar uma reprimenda. È repreender. È ver alguém crescer. É esperar que alguém tenha paciência de ler isto até ao fim. É ter 20 anos e não ter passado da segunda linha. É ter 30 já ter ido mudar a fralda ao rebento pelo menos duas vezes. É ter 40 e já ter ido buscar o “rebento” ao hospital ou á esquadra por este ter agredido um idoso, ou uma tartaruga, de 153 anos. O tempo passa a correr. É inegável. É...

Vasco Correia

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