Viagem no Tempo com a Feira Medieval de Alhos VedrosPor Vítor Pereira Mendes

Por Jornal Rostos
A CULTURA
A primeira viagem no tempo que a Feira Medieval de Alhos Vedros nos proporciona é à Alhos Vedros deste tempo. É de louvar que no contexto actual de massificação social da actividade desportiva sem “cultura de desporto”, sem grandes valores ou pedagogia ao nível da formação do ser humano, os Alhosvedrenses se motivem para levar a efeito uma iniciativa cultural de cariz lúdico-pedagógico com a duração de três dias. Todo o Concelho da Moita ganha com este ímpeto cultural dos Alhosvedrenses, não só em termos de produção cultural genérica, mas pela especialização, focalizada na História e no Património. Não é novidade, mas convém frisar.
O COMÉRCIO TRADICIONAL
A segunda viagem no tempo que a Feira Medieval de Alhos Vedros nos oferece é ao tempo da Dádiva – coisa rara nos tempos que correm. Apesar das dificuldades do Comércio Tradicional, derivado da crise ou apenas do esquecimento do Comércio como sector importante da nossa actividade sócio-económica, são os comerciantes de Alhos Vedros quem na realidade subsidiam a fatia mais gorda dos custos da Feira Medieval. A gratuidade da Feira para o visitante decorre do gesto do Comércio Tradicional e não do de qualquer grande superfície. Que a Feira resulte, evolua e se afirme como mais um grande evento de Alhos Vedros e leve mais gente à terra e todos possam ficar a ganhar, é o que desejo.
O ASSOCIATIVISMO
A terceira viagem no tempo que a Feira Medieval de Alhos Vedros nos presenteia é ao tempo da Partilha. É uma iniciativa que, creio, foi aberta à participação de todas as associações e colectividades de Alhos Vedros. Não importa “Quem?”, importa o “Quê?”. E o “Quê?” é aquilo que é “comum” aos Alhosvedrenses: Alhos Vedros. Associar é unir. Que os que estão saibam cativar novas colaborações para que a Feira transcenda em dimensão, é o caminho a seguir. É um projecto interessante e que as circunstâncias históricas determinam “único”, pois o motivo, “Alhos Vedros, Ceuta à vista!”, relembra aos mais distraídos que foi em Alhos Vedros e não noutro lugar qualquer que D. João I tomou a decisão da Conquista de Ceuta, dando início aos Descobrimentos e à Expansão Portuguesa, que deu “Novos Mundos ao Mundo”. Não é retórica, até os estaleiros navais dos Descobrimentos se localizavam no sítio da Telha, Alhos Vedros. De resto, o cenário escolhido é excelente, com a acção a desenvolver-se no adro da Igreja, Parque das Salinas e Cais de Alhos Vedros.
A EDUCAÇÃO
Por fim e como destino, começa de forma acertada a Feira Medieval de Alhos Vedros, com ateliers destinados aos mais novos e com a visita do Agrupamento de Escolas Zeca Afonso de Alhos Vedros. É indiscutível a valência pedagógica das recriações históricas. Neste tipo de “História ao Vivo” é dado aos visitantes assistir e “viver” um determinado episódio ou quotidiano de uma época. A encenação e dramatização ao “vivo”, em interacção “próxima”, permite despertar e cativar públicos que uma acção mais formal de comunicação de conhecimentos não permitiria alcançar. Assim, de uma forma mais “viva”, mais atractiva, é possível desenvolver-lhes o gosto pela descoberta do passado, sensibilizá-los para a compreensão da história e mobilizá-los para a preservação do património. São factores de valorização identitária que nunca devemos esquecer.
Vítor Pereira Mendes
Antropólogo














