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Ruas reveladorasPor Luís Rodrigues

Fica aqui o conselho aos nossos autarcas e forças vivas locais: já está na hora de começarmos a diversificar e a enriquecer, de maneira universalista e progressista, a toponímia das nossas cidades. Esse acto singelo reflectirá um pouco daquilo que somos e daquilo que ambicionamos – e quanto a este aspecto, convenhamos, somos ainda um pouco provincianos e beatos…

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Ruas reveladoras Por Luís Rodrigues

Por Jornal Rostos

Atribuir o nome a uma rua constitui um acto solene que qualquer Município deve realizar com bastante ponderação e rigor. Ficará para a história da cidade, vila, aldeia ou lugar, não só o nome da personalidade ou evento homenageados, mas também, o critério de quem procedeu a essa nomeação.
Em Portugal, muitos de nós já constatámos a grande frequência com que ocorrem o nome de certas ruas, avenidas ou pracetas: República, Liberdade, Vasco da Gama, Miguel Bombarda, Egas Moniz, Santa Maria, Camões, D. Afonso Henriques, D. Henrique, etc.
Um exercício curioso consistirá em verificar como é que os nossos critérios de escolha podem revelar um pouco do nosso insconciente colectivo. Para aferir estes dados, nada como recorrer às potencialidades da informática: consultando a Internet (nos vários programas de mapas on-line disponíveis) ou um GPS, saberemos onde e qual a frequência de ocorrência do nome de determinada rua em Portugal.

O primeiro facto curioso reside na nossa aversão a estrangeiros (principalmente, personalidades na área das ciências) quando se trata de dar nomes a ruas: por muita importância que possa ter tido, o nome da individualidade ou do evento que não se circunscreva a Portugal, ficará imediatamente marginalizado.
Assim, não existe no País nenhuma rua que tenha o nome de Albert Einstein, o maior cientista de todos os tempos, descobridor da Teoria da Relatividade. Não estamos evoluídos nesta matéria, mas isso não é de estranhar: Charles Darwin, o biólogo que nos demonstrou a Teoria da Evolução, também não se encontra representado. Será esta falta de memória na homenagem, um problema do subsconsciente colectivo? Talvez: Sigmund Freud, o pai da psicanálise, também não tem o nome de nenhuma rua em Portugal; e assim poderíamos continuar indefinidamente. É caso para perguntar: não estarão os nomes das ruas de Portugal a precisar de um valente choque tecnológico?

O segundo facto curioso reside na nossa propensão a acolher nomes estrangeiros sempre que lhes tenha sido concedida a santidade. Desta forma, não será estranho verificar a grande proliferação de ruas com nome de santos (como São Tomás de Aquino ou Santo Agostinho) ou Papas (como João XXIII ou João Paulo II) constatando ao mesmo tempo que não existe em Portugal, nenhuma rua com os nomes dos três principais colossos do pensamento filosófico ocidental: Sócrates, Platão e Aristóteles.
Fica aqui o conselho aos nossos autarcas e forças vivas locais: já está na hora de começarmos a diversificar e a enriquecer, de maneira universalista e progressista, a toponímia das nossas cidades. Esse acto singelo reflectirá um pouco daquilo que somos e daquilo que ambicionamos – e quanto a este aspecto, convenhamos, somos ainda um pouco provincianos e beatos…

Luís Rodrigues
Arq. Urbanista
cidadela@portugalmail.pt

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