BEDUÍNOS E TUAREGUESFlorbela Viegas*
Sim, porque isto de se viver num deserto, tem que se lhe diga.
Ainda por cima corremos o risco de contrair cancro do pulmão, o que é uma chatice, pois hospital é coisa que por aqui não há.

Por Jornal Rostos
Estava eu a dar de beber a alguns camelos, no meu oásis privado, quando ouvi dizer que se aproximava a comitiva do tal Ministro.
Vinha ele acompanhado de um muçulmano e de um hindu, para estudar a possibilidade de colocação de bombas nas pontes e eu, como boa anfitriã que sou, com uma casa de férias na praia de Alburrica, convidei-os a ficar em minha casa, já que neste deserto não há hotéis.
O problema é que eu só tinha um quarto vago, com duas camas, e um sítio no curral onde estão também um porquinho e uma vaquinha que comprei na feira da Verderena.
Todos aceitaram a minha hospitalidade e o hindu ofereceu-se para ficar ele a dormir no curral, no tal sítio limpinho, junto da vaquinha e do porquinho.
Recolhemos aos nossos aposentos para passar a noite.
Ainda não tinham passado dez minutos, quando o hindu aparece muito consternado, dizendo que não poderia, de modo algum, pernoitar junto da vaca, pois esta era um animal sagrado.
O muçulmano, levantando-se, concordou ir ele dormir para o curral.
Maldita a hora!
Passados alguns momentos, aparece-me à porta de casa a dizer que não poderia dormir com o porco, pois este era um animal imundo.
Eu fiquei a ver no que aquilo dava, quando o tal Ministro se levantou e ofereceu para ir ele dormir para o curral, junto do porco e da vaca.
Estava eu novamente quase a adormecer, quando oiço tocar a campainha da porta da rua e vou abrir. Qual não é o meu espanto, eram o porquinho e a vaquinha que preferiram ir dormir para a casota do cão.
Já não consegui dormir mais. Levantei-me, vesti a minha burka azul e fui ter com os Tuaregues, aqueles homens azuis, ali para os lados do Barreiro Velho, onde costumamos tertuliar.
Um deles leu-me um velho provérbio Tuaregue que diz: “Deus criou o mar para que o Homem pudesse viver e criou o deserto para que ele pudesse ver a sua alma”.
Achei aquele provérbio lindo e, não sei por que carga de água, dei comigo a pensar nos responsáveis da Autoeuropa, situada bem no coração da Margem Sul.
Florbela Viegas*
*”A Mecinha do Vison”














