AVENIDA DA PRAIAPor Florbela Viegas
E como é bom regressar ao Barreiro, ao seio de todos aqueles que gostam de nós!
Visto o meu fato de treino, calço as sapatilhas, prendo o cabelo e eis que corro pela Avenida, neste fim de tarde de Verão, em que o sol me beija e o rio acalenta a minha alma. Sinto-me feliz!

Por Jornal Rostos
Finalmente a rotina dos passeios à beira rio, que nos embala as recordações, em que sentimos que vale a pena viver, porque somos livres e temos amigos que gostam de nós.
Dou pela sua falta. Por ali se sentava, em fins de tarde de Outono, naquele banco frente ao rio. Gabardina cinzenta, coçada e chapéu de chuva, qualquer que fosse o dia e a hora.
O leve bater da ondulação ribeirinha serenava-o, por certo.
Aquele banco de madeira, virado ao rio, tinha rugas na face tabuada, com o peso da sua vida e de muitas outras histórias, pesando sobre ombros imaginários.
Todos os dias acabavam, ali, sozinho. Era naquele banco que tentava enganar o tempo. Os barcos que chegavam, os barcos que partiam, as gaivotas que voavam, a multidão apressada e indiferente à sua imensa solidão.
Eu, olhando para ele, pensava quem seria aquele sonhador que, como eu, atirava pedrinhas ao rio, num exercício de constante melancolia.
Havia sido alguém, imaginava eu, pela forma como o seu olhar se perdia no vazio distante. Agora, talvez fosse ninguém.
Os dias eram sempre rotineiros. Ali passava as horas em meditativos momentos, contemplando o sol poente. Depois, já a coberto da noite, fazia-se vulto e abandonava o cenário, arrastando a sua mágoa e a minha, porque, no fundo, nós éramos iguais.
Não tinha nome, não tinha rosto, não tinha idade. Protegia-o a solidão e aquele anonimato cruel da cidade.
Quando deixou de aparecer, os fins de dia continuaram iguais, como dantes, e outras pessoas se sentaram naquele banco que ficou com mais histórias para contar. Mas o banco guardou segredo, numa espécie de sigilo profissional.
A verdade é que nunca ninguém reparou naquele homem agastado e triste.
Eu recordo-o, sempre, como uma história que nunca chegará a ser contada.
Para mim, os ocasos nunca mais foram os mesmos, sem aquela misteriosa silhueta.
Hoje, sentando-me naquele mesmo banco, atiro pedrinhas ao rio e penso:
Ele poderia não ter nome, não ter rosto, não ter idade.
Mas poderia ser eu.
Florbela Viegas














