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Quotidianos

A AutocríticaPor Pedro Estadão

Tive esta semana o prazer de ler o Editorial que o Dr. Luís Ferreira escreveu no Jornal do Barreiro. A forma refinada que usou para se afastar do seu “extenso arsenal de mágoas pessoais e profecias apocalípticas” e se entregar ao exercício de uma humilde e ponderada autocrítica, fez crescer a minha já profunda admiração por esta figura da política Barreirense.

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A Autocrítica Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

Tive esta semana o prazer de ler o Editorial que o Dr. Luís Ferreira escreveu no Jornal do Barreiro. A forma refinada que usou para se afastar do seu “extenso arsenal de mágoas pessoais e profecias apocalípticas” e se entregar ao exercício de uma humilde e ponderada autocrítica, fez crescer a minha já profunda admiração por esta figura da política Barreirense.

Ao fim de três meses de voto de silêncio auto imposto, também eu, à semelhança do autarca de Gaia que em bom tempo se pronunciou sobre as coisas do seu partido, decidi abrir a alma para felicitar o novo Director do Jornal do Barreiro pela sua contratação e, ao mesmo tempo, revelar a minha convicta certeza de que, sendo uma figura maior da cultura da nossa terra, o Dr. Luís Ferreira nos irá brindar, semana após semana, com brilhantes exercícios de reflexão sobre os acontecimentos do nosso mundo e do nosso tempo. Congratulo-me com a sua nomeação, tanto pelo enorme apreço que tenho pela sua pessoa, como pelo que sei que irá fazer em prol do Barreiro e dos Barreirenses enquanto dirigente de um dos órgãos de comunicação mais importantes da nossa terra.

Apreciei sobremaneira a forma séria e honesta com que entregou ao exercício da sua autocrítica no Editorial a que chamou “A encruzilhada do labirinto”. Qual Ícaro munido de asas, despede-se da incerteza da encruzilhada para voar em direcção à luz. A forma desprendida com que se debruça sobre a criação de um grupo de reflexão, por parte de Passos Coelho, de maneira a que os novos humilhados e ofendidos do PSD possam gastar algumas horas a dissertar sobre matérias que se afigurem relevantes para o interesse pátrio ou que, em alternativa, fragilizem a actual liderança, faz recordar a sua própria intervenção, em tempos, na preparação de uma já esquecida Convenção Autárquica do PS.

Da mesma forma, a percepção acutilante que nos apresenta do facto de quezílias constantes e guerrilhas eternas impedirem que se promova uma verdadeira ruptura com o paradigma de funcionamento vigente, ou que se renovem os quadros dirigentes nos partidos, lembrando-nos que este retrato desolador não é exclusivo do PSD, só nos pode fazer crescer a estima e consideração que já lhe dedicamos, particularmente quando considera “que os comportamentos no interior das diferentes forças políticas acabam por não divergir em muito deste panorama, com a prevalência das guerras tribais e o alpinismo social a obscurecer qualquer noção de bem comum”.

Revejo-me e enalteço a sua preocupação com o ”esforço diário empreendido por milhares de homens e mulheres que, desinteressadamente, dedicam muito do seu tempo ao serviço de causas”, que “acaba por ser traído por uma escassa minoria de profissionais da intriga e da maledicência”. Sinto como nossa a preocupação do Dr. Luís Ferreira com a aparência de que “o que costuma estar em jogo é apenas a defesa da esfera do interesse pessoal, e a manutenção a todo o custo de qualquer migalha de poder, por mais insignificante e ridícula que esta seja”, e diria mais: sem olhar a meios.

Sinto-me orgulhoso de ter no Dr. Luís Ferreira um concidadão que considera que “a predominância do imediatismo e das respostas casuísticas”,nos conduziram “ao impasse em que actualmente nos encontramos, colocando a amoralidade como uma das características predominantes do período que vivemos”. Observo com felicidade que está preocupado com as chagas que o pragmatismo sem alma tem vindo a colocar no corpo ideológico dos partidos, trazendo essa evidência à nossa reflexão e fazendo-nos, também a nós, crescer asas, para que, como ele, possamos sair da encruzilhada em que nos encontramos.

São importantes as conclusões que nos apresenta sobre o facto de a “reconfiguração dos sistemas eleitorais, a criação de novos mecanismos de fiscalização da actividade dos eleitos ou o aprofundamento da democracia participativa” constituírem “apenas respostas parciais para as questões do presente”. Nota-se a sua abjecção a qualquer forma de personalização do poder quando indica que “qualquer reforma do sistema político que passe ao lado, ou secundarize, o papel das organizações partidárias e do seu modelo de funcionamento na qualidade da nossa vida cívica” se encontra “condenada ao fracasso”. São os traços humanistas da sua personalidade e a rectidão do seu carácter que sobressaem quando ataca o alastrar galopante da corrupção e do tráfico de influências e se entrega à conclusão de “as eleições internas” do partidos “devem obedecer a critérios de absoluta transparência e legalidade, dado que neste capítulo não existem inocentes ou gente mais distraída”.

Registo ainda a preocupação do Dr. Luís Ferreira com a crise, “comum a todas as forças políticas que se encontram na oposição”, “que as torna permeáveis à força avassaladora do clientelismo e do oportunismo”. Não esperávamos dele outra coisa e a sua referência pública a estes assuntos, naturalmente, enche-nos de satisfação e faz crescer em nós a vontade de lhe dar os parabéns por tão excelsa reflexão e tanta objectividade no olhar para trás e fazer nascer novas ideias para o futuro. Acredito, tal como ele, que “a dimensão política dos conflitos tornou-se proporcional à ânsia de ganhar ou manter protagonismos a todo o custo”. Acredito também que a “sucessão de ataques pessoais vai ocultando o vazio de ideias” e que ”as campanhas difamatórias disfarçam a repetição nauseante dos protagonistas”, foi por isso que decidi sair da minha hibernação política para lhe traçar os mais rasgados elogios pelo seu exercício de auto-crítica e lhe entregar um grande bem-haja por ser que é.

Não deixe a esperança desvanecer, Dr. Luís Ferreira, a cera só derrete no Verão.

Barreiro, 4 de Agosto de 2008

Pedro Estadão

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