“Ir ou Não Ir, Será a Questão?”ou “O Fim da Silly Season”Por Jorge Carvalho
E é importante fazê-lo, este questionar, para que os utilizadores da insinuação, do subtexto e da insídia, possam ser mais facilmente apanhados pelos, de outro modo, inocentes.

Por Jornal Rostos
É comum acontecer, quer em comentários a este jornal ou até nas participações em eventos, que se façam referências a putativas ausências de pessoas, isoladamente ou em grupo (às vezes é só miopia…), a determinados eventos.
Penso que essas referências, quer feitas na forma afirmativa ou interrogativa podem ser interpretadas como um comentário a um comportamento, o não-ir-a-reuniões-promovidas-por (designação a preencher pelos interessados), a que se quer dar uma conotação de censurabilidade ou, até mesmo, o constituir de uma desvalorização da capacidade geral de intervenção de quem não vai.
Garanto que não estou a fazer nenhum processo de intenções, o que aliás detesto, mas estas referências abrem efectivamente o caminho a este entendimento.
É que, em geral, são acompanhadas de observações supostamente ingénuas do género “estranhamos…”, “é pena que…”, “nem sequer se dão ao trabalho…”, “se calhar preferiram ir para a praia”, o que, convenhamos, principalmente quando ditas em público, permitem um passeio com a capa de super-herói da participação (da treta?).
É que, em geral, não são feitas de uma forma construtiva, procurando analisar os processos e contribuir para que se faça uma participação real e fundamentada.
Por exemplo, seria interessante procurar saber se a publicitação dos eventos foi suficientemente ou eficazmente feita, ou se estes tinham algum conteúdo prático, ou interesse, para além da arregimentação dos fiéis e do contar das espingardas.
E se um evento for organizado de forma a ter uma participação restrita, o que acontece e é perfeitamente aceitável, isso não deve surpreender ou levantar grandes questões.
Claro que, naturalmente, não esperamos e não desejamos que isto se passe com eventos como o da apresentação e esclarecimento pelo executivo CMB no dia 1 de Agosto, da Requalificação do Centro do Barreiro, e isto apenas a título de exemplo. Penso, aliás, que se terá procurado fazer um trabalho razoável de divulgação, eventualmente não totalmente conseguido. E só me refiro a este evento por ele ter dado azo a pseudo-análises do tipo acima referido
Não vou por isso começar a especular acerca de intenções de pseudo-divulgação que o executivo da CMB poderia ter tido; seria muito incorrecto para além de constituir uma grande injustiça, e digo-o sem ponta de cinismo: às vezes as coisas, em particular na divulgação e publicidade, não correm como se deseja; não estamos a falar de uma ciência exacta.
E isto tudo porque…
Na minha opinião as pessoas já tiveram que ir à Igreja (ai delas se não fossem!) às manifestações da União Nacional e aos Retiros de Não-Sei-Bem-O-Quê (lá se iam as promoçõezinhas ou lá começavam as perseguições se não fossem lá vistas), já votaram de braço no ar em muitas reuniões vigiadas por especialistas em vigiar comportamentos (era o medo, natural, de ser notada pelos controleiros).
Ora eu penso que devemos ter a coragem intelectual de aceitar que cada um, em particular o “outro” de referência, possa ir onde quer, se quer, quando quer, sem que daí haja o direito de fazer inferências, levantar suspeições ou fazer qualquer outra espécie de juízos.
Também não vale a pena fazer um grande cavalo de batalha, shakespeariano ou não, sobre um qualquer inatacável direito à privacidade ou algo de igualmente aplicável.
Quem se ocupa de “mas tu (não) estavas lá”, “olha que eu vi-te e vou dizer…”, “tu andas aqui a fingir que és dos nossos, mas nunca cá vens” e faz disto modo de estar, sente-se importante é com estas coisas!
Devemos contudo aceitar que alguém possa questionar as idas e vindas de alguém sem que isso seja revelador de um qualquer reflexo pidesco. Não devemos colocar nos outros e a priori intenções malévolas que iriam muito para além do que pode ser apenas expressão de uma curiosidade natural.
Já se poderá questionar, porém, o que está verdadeiramente em jogo, quando se começa a levantar processos de “ir ou não ir”, sem sequer se dar ao trabalho de, por exemplo, verificar se a “culpa” reside no emissor, no meio ou no receptor.
E é importante fazê-lo, este questionar, para que os utilizadores da insinuação, do subtexto e da insídia, possam ser mais facilmente apanhados pelos, de outro modo, inocentes.
E poderem destrinçar onde acaba o interesse e curiosidade legítimas e onde começa a maldadezinha…
Além de tudo o mais, até pode ser que Karl Valentin esteja parcialmente errado e até seja possível exterminá-los, como no desenho animado das tardes americanas, sem sangue a ver-se.
Eu, que sou um apaixonado pela ficção científica, sonho com aquela altura em que podemos viajar no tempo, encontrar as avozinhas daquela gente que, como dizia, repetidamente, aquele mestre na prosa desportiva, conhecido popularmente como “O Palmelão”, “vocês sabem de quem estou a falar…” e…
Não, não quero sugerir liquidá-las! Só quero poder vigiá-las de perto e, pouco antes daquele momento fatídico, zás, catrapás: oferecer-lhes um fornecimento vitalício de Camisinhas de Vénus!
Jorge Carvalho














