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Quotidianos

TGV, para quê?Por Florbela Viegas

O TGV em Portugal diminuirá em apenas 30 ou 40 minutos a distância de Lisboa ao Porto, à custa de um investimento faraónico de cerca de 7,5 mil milhões de euros que não trará qualquer benefício à economia do País.
Como é um projecto praticamente não financiado pela União Europeia, constitui um presente envenenado para várias gerações de portugueses que, com maior ou menor engenharia financeira, vão ter de o pagar.

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TGV, para quê? Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos

Regressando de férias e já dentro do avião que me traz de volta a Portugal, tenho tempo mais do que suficiente para pensar, meditar, analisar e tirar conclusões sobre todas as coisas que constituem a nossa rotina e a nossa razão de viver.
Actualmente, em Portugal, estamos a atravessar tempos conturbados de mudança, ainda que não tenhamos plena consciência desse facto.
Tenho pensado muito nas minhas viagens de Copenhaga a Estocolmo, de comboio.
Por lá, esse meio de transporte equipara-se em velocidade aos nossos Alfas, embora menos luxuosos e dotados de menos serviços de apoio aos passageiros.
Normalmente, leva-se cerca de cinco horas de viagem, através de florestas geladas e planícies brancas, a perder de vista.
Sendo crítica acérrima do projecto TGV e conhecendo a realidade económica e social daqueles países, dou comigo a pensar se os nórdicos, representantes únicos dos PIB e superavits orçamentais, serão mesmo uns palermas.
Se não conhecesse bem o seu modo de vida, perguntaria onde gastarão eles os abundantes recursos financeiros resultantes da substancial criação de riqueza.
A resposta está bem à vista, na excelência das suas escolas, na qualidade do seu ensino superior, nos seus museus e escolas de arte, nas creches e jardins-de-infância em cada esquina, nas políticas de saúde e de apoio à terceira idade e à juventude.
Percebe-se bem por que não construíram estádios de futebol megalómanos e desnecessários, por que não constroem aeroportos em cima de pântanos, nem optam por ter comboios que só agradam a meia dúzia de multinacionais .
O chamado TGV que agora queremos para Portugal, é um transporte adaptado a países de dimensão continental, extensos, onde o comboio rápido é, numa perspectiva de tempo de viagem/custo por passageiro, competitivo com o transporte aéreo.
Encontramo-lo em Espanha e França, devido à referida pressão de certos grupos estrangeiros que fornecem essas tecnologias.
Não o encontramos na Noruega, na Suécia, na Holanda e em muitos outros países ricos, porque os respectivos governos são sensatos.
O TGV em Portugal diminuirá em apenas 30 ou 40 minutos a distância de Lisboa ao Porto, à custa de um investimento faraónico de cerca de 7,5 mil milhões de euros que não trará qualquer benefício à economia do País.
Como é um projecto praticamente não financiado pela União Europeia, constitui um presente envenenado para várias gerações de portugueses que, com maior ou menor engenharia financeira, vão ter de o pagar.
Com esses 7,5 mil milhões de euros poderiam construir-se mil escolas básicas e secundárias ultra-modernas que substituíssem as mais de cinco mil obsoletas agora existentes (a 2,5 milhões de euros cada uma), mais mil creches inexistentes (a 1 milhão de euros cada uma), mais mil centros de dia para os nossos idosos (a 1 milhão de euros cada um).
Ainda sobrariam cerca de 3 mil milhões de euros para construir hospitais ou centros de saúde, apoiar as artes e os artistas portugueses que estão pobres e votados ao esquecimento e aplicar em muitas outras carências, como a urgente reabilitação de toda a degradada rede viária secundária.
É só fazer as contas.

FLORBELA VIEGAS

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