“ROSTOS”Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos
Sempre que leio um jornal, gosto de ir primeiro à página da necrologia.
Não sei porquê, não posso deixar de fazê-lo. É superior às minhas forças.
Será aquele desejo secreto que quase todos já experimentámos, pelo menos uma vez na vida, de não querermos ver lá a foto daquela pessoa que foi tão especial para nós e que um dia perdemos de vista?
Não sei. Possivelmente será esse o tal motivo inconsciente, que Freud explicará, por certo.
Detenho-me a olhar as fotos. Algumas não estão de acordo com a idade dos falecidos. São fotos de jovens que à primeira vista teriam morrido na flor da idade. Uma leitura mais atenta, porém, denuncia que a idade do “de cujus” já é avançada e que aquele jovem que vemos na fotografia, já o foi há muitos anos atrás.
Por qualquer motivo, alguém pegou na primeira foto que apanhou e, sem sentido crítico, numa espécie de marketing fúnebre, colocou no anúncio da praxe: “ Foi Deus servido chamar à Sua Divina presença…”. Uma sacanice, uma falta de respeito para com o morto.
Enfim, não podemos imputar a responsabilidade aos falecidos. Isso seria exigir demais e, como nós, os vivos, dizemos, paz às suas almas e que Deus os tenha.
Por analogia, debruço-me também sobre as fotos que ilustram os artigos de opinião e as crónicas, em muitos jornais impressos e on-line.
Há vários anos que alguns cronistas e outros autores exibem a mesma juventude, o mesmo sorriso, a mesma cabeleira farta, o mesmo ar jovial de quem ainda está ali para as curvas.
Ok! Eu compreendo perfeitamente que nem sempre o fotógrafo acerta e consegue captar o nosso lado mais sensual e que, quando isso acontece e se fica bem no retrato, é a felicidade das felicidades.
A tendência é fazer dele o nosso cartão de visita, ao ponto de o utilizarmos “ad aeternum”, mesmo que as rugas já comecem a instalar-se e o sorriso, outrora luminoso, seja agora pálido e muitas vezes desdentado.
Algumas dessas fotos são, em tudo, parecidas com as da necrologia. São perenes, catatónicas e obedecem quase sempre a uma lógica do sentimento de si próprio, como um exorcizar escatológico do tempo e da razão.
Talvez no seu íntimo, no mais profundo do seu ser, os retratados se considerem como Dorian Gray e vejam naquela fotografia a sua própria sombra como um instrumento de sedução, aquela sedução que já foi e não voltará a ser, nunca mais.
Este é um fenómeno recorrente. Eles e elas têm sido unânimes e contumazes na utilização de fotos antigas, apesar de a legislação portuguesa de identificação civil e criminal prever que as fotografias deverão ter menos de um ano.
Pela parte que me toca, se um dia eu tiver essa maluqueira, de querer ser uma eterna “chavala”, que Deus me faça cair qualquer coisa em cima do toutiço.
Florbela Viegas














