“TREBLINKA”Por Florbela Viegas
Antigamente havia apenas duas hipóteses: ou a farda de polícia ou da CP. Muitos optaram por vestir a segunda. O Barreiro não foi excepção. Não havia família que não tivesse alguém ferroviário.
Percorro a pé os carris desdentados e reparo nas máquinas ferrugentas. Estou a olhar para o passado, um passado que também foi meu, ainda que intermitente e breve.

Por Jornal Rostos
Ando com um problema para resolver mas tenho medo de ser injusta. Eu sou assim. Penso sempre nos prós e nos contras, antes de resolver seja o que for.
Enquanto não chega o momento de decidir, vou andando por aí, pelas ruas da cidade, observando tudo aquilo que normalmente escapa à maioria dos olhares atentos, para ver se me inspiro.
Num desses meus passeios sem rumo, fui parar à zona degradada dos caminhos-de-ferro do Barreiro.
Vieram-me à memória os meus tempos de infância, quando visitava o meu falecido avô, no seu local de trabalho, paredes-meias com as linhas de comboio. Recordo-me do bulício e do fervilhar de vida em torno da CP e daquele cheiro acre, a ferro, a vapor e a carvão.
No Barreiro, o sector ferroviário e o caminho-de-ferro fazem parte do imaginário de várias gerações.
Antigamente havia apenas duas hipóteses: ou a farda de polícia ou da CP. Muitos optaram por vestir a segunda. O Barreiro não foi excepção. Não havia família que não tivesse alguém ferroviário.
Percorro a pé os carris desdentados e reparo nas máquinas ferrugentas. Estou a olhar para o passado, um passado que também foi meu, ainda que intermitente e breve.
Imagino o meu avô com o seu aspecto franzino e olhar inteligente que me dizia sempre: “se fosses rapaz, levava-te comigo a andar no comboio”. Eu morria de inveja dos meus primos que, por serem rapazes, tinham esse privilégio: andar no pequeno comboio que transportava mercadorias da CUF.
Os lugares, outrora preenchidos, estão agora desertos e têm uma história para contar.
Os fantasmas espreitam pelas janelas de vidros partidos e caixilharias podres. Acenam-me como que a despedir-se de mim e eu, sem querer, associo-os a Treblinka.
Meu Deus, como aquele lugar está parecido com Treblinka!
Dali, daquelas oficinas, também foram deportados em massa, milhares de trabalhadores, despedidos, sem piedade, em nome do Progresso.
O desaparecimento do caminho-de-ferro foi uma grande perda, não apenas para aqueles que viviam dele mas também para a cidade como um todo, porque contribuiu para o empobrecimento do Barreiro e das suas gentes.
Não é justo que se deixe cair no esquecimento quem deu vida à cidade e contribuiu para o seu desenvolvimento. Há memórias que se devem restaurar e preservar, para serem transmitidas às futuras gerações.
Por isso, penso muitas vezes que não seria despicienda a ideia da criação de um Museu da História dos Ferroviários Barreirenses, em vez de deixar apodrecer e morrer o que resta das suas memórias.
Avô, da janela do teu escritório, já não se vêem pessoas.
E agora já não há gestores capazes. Só olham para o TGV.
Tenho saudades tuas.
Vou ficar por aqui, mais um pouco, para me lembrar de ti.
Florbela Viegas














