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Quotidianos

EU NÃO SOU DA C.U.F.!Por António Cabós Gonçalves

Não tendo nenhum familiar a trabalhar na C.U.F., nada me motivou, por isso, para ser “tachista”, como nós, os adeptos do “glorioso”, chamávamos, injustamente, aos Sócios do clube que equipava de “verde e branco” e que, de acordo com uma certa mitologia local, só iam aos jogos para agradar ao “Patrão”…
Não sou, por isso, da CUF. Sou, isso sim, do Barreirense!
Mas mal de mim e dos meus se não tivesse existido a Companhia União Fabril.

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EU NÃO SOU DA C.U.F.! Por António Cabós Gonçalves

Por Jornal Rostos

Nasci em Fevereiro de 1955. Os meus pais vieram para o Barreiro no princípio do mês anterior.
Toda a minha parentela é de Setúbal, onde os meus progenitores nasceram, até aí viveram e tinham a sua vida, como sói dizer-se, “montada”.
Mas, afinal, o que fez com que adultos já formados, ele com 33 anos e ela com 28, deixassem a terra natal e viessem para aqui?
Porque é que abandonaram uma oficina de automóveis e um “atelier” de modista, ao que consta, ambos bem afreguesados, para um apenas eventual “upgrade” para “Agente Comercial” e “Professora de Corte e Bordados” da única máquina de costura portuguesa, a “Oliva” de boa memória?
Resumindo: o que é que tinha o Barreiro nessa altura que motivasse alguém a deixar para trás a família, a capital do Distrito e profissões estabilizadas, para além de uma duvidosa proximidade de Lisboa e as chaminés e o fumo que eram um dos seus malfadados “ex-libris”?
Bem, o Barreiro tinha a Fábrica! A tal onde as chaminés se iam multiplicando, como cogumelos, ao ritmo do crescimento dos negócios. Negócios que provocavam a decantada fumarada mas, também, uma estabilidade no emprego e uma garantia de salário certo a que só os funcionários públicos podiam aspirar. O Barreiro tinha a Companhia União Fabril!
Deve ter sido isso que o meu padrinho Alberto, gerente da “Máquinas Oliva de Setúbal Ldª.”, terá dito ao meu pai para o convencer a vir para cá. E, se assim foi, tinha muita razão.
Nesse tempo a máquina de costura era um equipamento indispensável numa casa. O “pronto-a-vestir” era ainda incipiente e nas famílias as roupas transitavam, após a necessária adaptação, de pais para filhos e dos irmãos mais velhos para os mais novos. Os têxteis do lar ainda não vinham da China a pataco e qualquer menina era instruída, desde pequena, para as virtualidades das “prendas domésticas”. Sendo que as moçoilas quanto mais “prendadas” mais requestadas seriam pelos pretendentes ao casório. E de todos os moços casadoiros os mais apetecidos eram, naturalmente, os que trabalhavam na CUF.
Mas o negócio vivia da venda das máquinas. As “CL 45” pretas, que só coziam e bordavam “a bastidor”, para os mais pobres; as “CL 46” e “CL 50” de “cabeça” verde, que já permitiam outras fantasias e eram compradas pelos mais abastados ou pelas senhoras que trabalhavam “para fora”.
E a imensa maioria delas eram vendidas a prestações. Com um contrato e fiador. Que às vezes se dispensava. Especialmente se o comprador trabalhasse na C.U.F.
As prestações, mensais, eram, em regra, 36. Três longos anos a pagar a máquina de costura. A qual trazia, de “bónus”, uma garantia de assistência técnica e um Curso de Corte e Bordados a acompanhá-la. Cursos muito úteis naqueles tempos e que a minha mãe diz, orgulhosa, que foram frequentados por muitas “esposas dos Engenheiros da C.U.F.” de quem ela era a “Mestra”.
Todavia, nesses tempos, muitos dos “chefes de família” ganhavam à semana, ou à quinzena. Por isso, respeitando esse ritmo salarial, os recibos tinham uns talões que permitiam o parcelamento do pagamento segundo as conveniências dos clientes.
E ao fim de semana, num trajecto previamente determinado e que “respeitava” as folhas de “féria” dos consumidores, lá ia eu, menino e moço, sem sombra de exploração de trabalho infantil, pelas ruas dos concelhos do Barreiro e Moita, que conhecia de cor e salteado, a receber as prestações. E a antever as comissões “generosas” que o meu pai me pagava e me permitia fazer uma vida de pequeno “lord” e ir ajudando uns amigos menos abonados.
Se, nalgum fim-de-semana, por preguiça ou atraso na “volta” não visitava algumas casas dessas pessoas que recebiam em parcelas, já sabia que, muito provavelmente, lá ficaria uma prestação “coxa” porque, como me diziam, “dinheiro em casa de pobre não consente misérias…”.
Foi, portanto, na base da imensa multidão que dependia da C.U.F., das famílias em que um ou quase todos dos seus membros aí trabalhavam, que os meus pais construíram o seu negócio e me criaram e ao meu irmão.
E foi quando a C.U.F. acabou que o comércio do Barreiro definhou.
Nasci no estabelecimento da Oliva, ao qual estava agregada uma habitação onde os meus pais moravam, com índices de qualidade de vida aceitáveis já que, entre outras coisas, da casa ao trabalho se demorava apenas alguns segundos…
Nessa época ainda estavam de pé, mesmo em frente à minha casa, os restos da Igreja de S. Francisco, durante tempos “abegoaria” da Câmara e posteriormente transformada na Central da “Anglo Portuguese Telephones”.
Ao lado, o pão quente saía da padaria do Sr. António, transformada, pouco depois, no famoso café “Fiesta” frequentado por muitos vultos barreirenses que eu aprendi a conhecer. Alterado o nome para “Farol” acabou em restaurante chinês… Mesmo ao pé estava o campo do Barreirense, que dava pelo pomposo nome de “Estádio D. Manuel de Mello”.
Nascido e crescido no centro do Barreiro tornei-me, naturalmente, adepto do clube “alvi-rubro”, como os grandes locutores do futebol luso gostavam de chamar ao F. C. Barreirense.
Não tendo nenhum familiar a trabalhar na C.U.F., nada me motivou, por isso, para ser “tachista”, como nós, os adeptos do “glorioso”, chamávamos, injustamente, aos Sócios do clube que equipava de “verde e branco” e que, de acordo com uma certa mitologia local, só iam aos jogos para agradar ao “Patrão”…
Não sou, por isso, da CUF. Sou, isso sim, do Barreirense!
Mas mal de mim e dos meus se não tivesse existido a Companhia União Fabril.
António Fernando Cabós Gonçalves, 53 anos

Depoimento e foto publicados no livro “Rua do Ácido Sulfúrico”, da autoria do Investigador e cidadão barreirense Jorge Morais (Editorial Bizâncio, Lisboa 2008).

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