Naquele tempo, o Barreiro era a CUFPor Luis Miguel Bravo

Por Jornal Rostos
PORQUE É O AMBIENTE que nos envolve desde que nascemos determinante para o tipo de percurso que fazemos na vida, acho fundamental, para a justificação de percursos de vida, o facto de se saber quais foram as nossas origens, porque temos determinados hábitos, alguns objectivos na vida. Quais foram as armas (também as genéticas) que nos foram transmitidas para enfrentar a vida que vem a seguir? O que faziam as pessoas que à nossa volta estavam enquanto crescíamos? De que maneira ganhavam o pão que punham na mesa? São as respostas a estas questões em conjunto que me levam a debruçar um pouco sobre a importância da relação da CUF com o Barreiro consequentemente sobre o impacto nas famílias contemporâneas da Companhia União Fabril, tomando a minha como exemplo.
Domingos da Luz, meu avô paterno, falecido em meados da década de sessenta do século passado, é referenciado por alguns escritores/jornalistas barreirenses como homem de trabalho, profissional serralheiro da mais fina água, uma pessoa que prezava o bem-estar da família e que para isso trabalhava arduamente. Foi pai de quatro filhos, o primeiro dos quais o meu tio Vítor Luz, fruto de um primeiro casamento do qual enviuvou. Do segundo casamento com Justina Ferreira, nasceram os meus tios Pedro e Luís da Luz (este, falecido muito novo) e o meu pai, José João da Luz.
Quando falo do meu avô, do meu pai e dos meus tios, estou falar de uma equipa fabulosa de artistas do ferro e da mecânica, pessoas que precisavam de ter uma oficina no quintal a que chamassem sua e onde consumiam o tempo a trabalhar na sua arte inventando e inovando. Eram peritos em executar máquinas-ferramentas que punham ao seu serviço incrementando a qualidade, perfeição e rapidez na execução dos objectivos que se propunham concretizar. Fora da Companhia, chegaram a ter uma oficina de metalomecânica na Rua Dr. António José de Almeida, no Barreiro, e onde foi produzido, por exemplo, um grande brinquedo que fez as delícias dos utilizadores da Feira Popular noutros tempos: estou a falar do carrossel «OITO» que certamente ainda está na memória de alguns.
As palavras que ouço de quem com ele desde cedo conviveu compõem histórias de vida que ilustram o carácter do homem que tento reviver na minha mente.
Domingos da Luz foi um dos que ajudaram Alfredo da Silva «fazer» a CUE Levava os filhos para o trabalho, eles gostavam a pouco e pouco tornaram-se como o pai, grandes oficiais do
seu ofício, entraram para a CUF como aprendizes e reformaram-se como «chapas brancas». Íamos com ele para a fábrica quando éramos miúdos, se houvesse serão dormíamos em cima das sacas e quando o trabalho acabasse voltávamos para casa, contava-me ainda há pouco tempo o meu tio Pedro, no meio do desfile das recordações que mantém desde os seus 15 anos, quando em 1937 entrou como aprendiz pela mão do seu pai para a Companhia União Fabril. Visivelmente emocionado, exclamava com a voz perturbada pelo orgulho e emoção: «Ainda hoje tenho que ter a minha oficina no quintal, não posso viver sem isso»!
Das coisas que restam no baú das memórias da minha infância, as que têm a ver com o trabalho do meu pai referem-se à sua permanente disponibilidade para a Companhia. Podia ser sá- bado, domingo, a qualquer hora, se o viessem chamar era com boa vontade que ele tudo largava para ir dar uma mão, responsável e interessado.
Nasci no dia 8 de Fevereiro de 1951 numa casa de 1.’ andar bem no centro do Barreiro, na Rua Eça de Queiroz, em frente do Mercado 1.0 de Maio. Era a casa do meu avô paterno, Domingos da Luz. Era uma casa com dois pisos de habitação, um sótão enorme e um quintal onde funcionava uma pequena oficina. Partilhávamos nessa altura o 1 .° andar com a família do meu tio Pedro, enquanto no piso térreo morava o meu tio-avô Luís Ferreira, irmão da minha avó Justina Ferreira. Nesse tempo, o meu avô estava deslocado a trabalhar, vivendo com a minha avó em Alferrarede, no bairro construído para alojar os trabalhadores da UFA. O Bairro da UFA em Alferrarede merece uma especial referência por ter sido durante a minha meninice o sítio onde passava as minhas férias de Natal e de Verão em casa do meu avô e onde gostava muito de estar. Estava implantado num terreno acentuadamente inclinado e era constituído por moradias geminadas de rés-do-chão e 1.º andar numa espécie de condomínio fechado muito arborizado onde dava gosto viver.
Da janela do quarto em que nasci quase que tocava nos merIões que encimavam todas as platibandas do Mercado 1º de Maio (hoje, na renovação do Mercado Municipal 1º de Maio, os merlões não vão ser repostos, não são contemplados no projecto do novo Centro do Barreiro porque alguém se lembrou de dizer que os referidos não existiam na praça originalmente construída. Um disparate só possível porque é proferido, coerentemente, pelas mesmas pessoas que os eliminaram «para mais fácil conservação do Edifício»). Era a janela onde se estendia a melhor colcha no 15 de Agosto, dia da Procissão em honra de Nª Sª do Rosário. Era a mesma para onde corria para ver o espectáculo dos cavalos da GNR martelando furiosamente o basalto da calçada, de manhã e ao fim da tarde, dia após dia, como que um lembrete, um bestial amolecedor de ideologias galopante. Vivi até aos 10 anos nessa casa, para mim naquela altura era apenas uma representação pesada mas ao mesmo tempo espectacular e fascinante, o verdadeiro significado da coisa escapou-me enquanto criança, naturalmente.
As referências familiares conjugadas com uma existência temporal na segunda metade do século XX colocam quem escreve estas linhas num tempo em que o Barreiro era a CUF e a CUF era o Barreiro.
Hoje tento ordenar as peças que compõem o espaço percorrido e dou comigo a ter que fazer opções acerca do princípio do «filme», só agora possíveis pelo distanciamento e pelos dados entretanto adicionados.
As memórias são boas! Éramos crianças e tínhamos com que nos entreter.
Aos 11 anos fui morar para o Bairro Novo da CUE A CUF tinha construído habitação para os trabalhadores da empresa, primeiro o Bairro Velho, no coração das fábricas, mais tarde o Bairro Novo junto à Estação da CP do Lavradio. Lembro-me das regulares visitas ao Posto Médico, também ele no coração das fábricas. Praticar desporto era uma coisa natural, existia o Complexo Desportivo de Santa Bárbara, que era usado pelas equipas do Grupo Desportivo da CUF nas várias modalidades. A visão daqueles campos todos a funcionar ao mesmo tempo, cheios de crianças a praticar desporto no decorrer dos Jogos Juvenis do Barreiro, era das coisas mais gratificantes que se podiam ver, mas que hoje não passa de uma memória ainda presente para alguns de nós que tínhamos ao fim-de-semana o Benfica, o Sporting e o nosso Barreirense-CUF, o mais importante de todos nesse tempo e hoje relegado para um muito secundário plano.
Havia inúmeros lugares criados para apoiar e cuidar dos filhos dos trabalhadores, absorvendo os tempos livres. Jogos como o ténis de mesa e o xadrez, entre outros, tinham praticantes de sucesso. Eram locais de convívio que, por estarem implantados no Bairro Operário, eram bastante frequentados.
Sem esquecer os acampamentos na Costa da Caparica organizados pela empresa, a Colónia de Férias era aquilo por que esperávamos todo o ano, era a certeza de umas semanas de Verão bem passadas em Almoçageme. Para a maior parte dos miúdos, constituía a única oportunidade de férias possível. Quantas empresas terão hoje trabalhadores com o mesmo tipo de regalias que a CUF dava a quem aí trabalhava nesse tempo? A Vila vivia ao ritmo da buzina das fábricas, 8 horas da manhã, meio-dia, 6 horas da tarde, milhares de pessoas cruzavam todos os dias os portões da CUF.
Tudo isto, hoje, em 2008, são apenas histórias para contar conforme o ângulo de abordagem. Alguns preferem esquecer o lado positivo da CUF, são assuntos que por algum motivo não dão jeito nenhum nos dias que correm por não fornecerem pontos para as provas em que estão inscritos.
Se o Barreiro era a CUF na segunda metade do séc. XX, a CUF era Alfredo da Silva que organizou uma Caixa de Previdência alternativa para os seus trabalhadores, que possibilitou a existência de um Grupo Desportivo que andou sempre no convívio com os maiores do panorama nacional, que construiu uma monumental casa de espectáculos e que vendia na sua «grande superfície», a Despensa, géneros alimentícios e outros a preços baixos. Todos estes items são condenados e denegridos por algumas opiniões publicitadas que vão no sentido de afirmar que, por uma razão ou por outra, eram tudo artimanhas para encaixar mais capital à custa dos trabalhadores. Provavelmente são as mesmas opiniões que reivindicam mais qualidade de vida para os trabalhadores fingindo não perceber que o que nos falta hoje em dia são empresários que mostrem na prática que o aproveitamento de sinergias, da forma como Alfredo da Silva o fazia, é a única forma de ter mais para mais poder repartir.
É nestes mesmos dias que correm que percorro intensamente o território CUF, conseguindo por vezes imaginar a azáfama dos anos 60 quando este agora deserto, com o rio ao lado, fervilhava de vida ao serviço da CUF, dos seus trabalhadores, do Barreiro e do País.
Parece que finalmente se vislumbra uma réstia de esperança num melhor futuro para a agora cidade do Barreiro, fundada sobretudo no aproveitamento do território abandonado há décadas e que agora se projecta num futuro de novo ao serviço da população barreirense, que o ajudou a construir suportando muita gasaria e mau ambiente para ajudar no desenvolvimento da Vila do Barreiro e do País, ao mesmo tempo que «pela sua localização protegia do ruído e do fumo os ouvidos e os pulmões da Capital».
Depoimento de Luís Miguel Bravo Ferreira da Luz, 57 anos
No Livro “Rua do Ácido Sulfúrico” – Patrões e Operários : um olhar sobre o Barreiro, de Jorge Morais














