O FACTOR CPor Florbela Viegas
O Governo anuncia “novas oportunidades” que não se vêem em lado nenhum. Conheço jovens que calcorreiam Seca e Meca, de diploma e curriculum debaixo do braço, em busca de trabalho. Muitos ouvem a frase caricata: “Tem habilitações a mais, para o desempenho do cargo”.
E o Governo, ao arrepio das tristes evidências, continua a dizer que Portugal precisa de procurar a “excelência”, através da educação e das “novas oportunidades”.

Por Jornal Rostos
Este Governo continua à nora por falta de "matemáticos". É um desespero. Ninguém dá duas para a caixa em matéria de prestação de contas e de finanças públicas. A falta de raciocínio lógico é outro drama.
Uma vez pensei que se, por qualquer motivo, fosse obrigada a deixar Portugal, e me perguntassem de que é que sentiria mais saudades, não hesitaria em dizer: «Sinto falta das pessoas, da terra, da luz, do mar, do ar».
Mas como um país não pode ser avaliado só por aqueles elementos, não posso deixar de reflectir neste meu sentimento.
Como tantos outros jovens licenciados, tive de me fazer ao Mundo, para poder sobreviver condignamente, dentro da minha área académica. Foram tempos difíceis que me exigiram cabeça fria e peito aberto para o que desse e viesse, em termos de carreira profissional. Mas, apesar de tudo, eu e os meus colegas tivemos sorte. Levámos a nossa “enxada” e cavámos o melhor que sabíamos e que fomos capazes. Por lá ficámos até hoje. Nós, portugueses, somos muito dedicados. Produzimos e temos espírito de missão, quando nos vemos privados do nosso universo.
Volto sempre, quando posso e me deixam e, nos dias de hoje, dou comigo a pensar se hoje teria tido a mesma coragem de me matricular em qualquer curso que fosse, numa universidade portuguesa.
Actualmente, em Portugal ser-se licenciado, é o mesmo que ser candidato ao desemprego de longa duração.
O Governo anuncia “novas oportunidades” que não se vêem em lado nenhum. Conheço jovens que calcorreiam Seca e Meca, de diploma e curriculum debaixo do braço, em busca de trabalho. Muitos ouvem a frase caricata: “Tem habilitações a mais, para o desempenho do cargo”.
E o Governo, ao arrepio das tristes evidências, continua a dizer que Portugal precisa de procurar a “excelência”, através da educação e das “novas oportunidades”.
A maior parte dos concursos públicos, externos de ingresso para admissão de técnicos superiores para a administração pública, publicados em Diário da República, estão viciados à partida. Quando lemos os critérios de admissão, não podemos deixar de pensar que muitos deles já têm destinatário e que só falta pôr lá a fotografia dessas pessoas a quem os lugares já estão destinados.
Nas empresas privadas passa-se o mesmo. Se o candidato a admitir é licenciado, só poderá ser o filho do gerente do banco onde a empresa em questão tem o crédito malparado, ou qualquer outra coisa do género. Uma mão lava a outra e incrementa-se o factor C de forma vergonhosa e despudorada.
Infelizmente, em Portugal, é do entendimento geral que as cunhas, ao fim e ao cabo, serão atitudes de grande humanidade em que, quem implora um favor, só quer facilitar a vida aos que gostam de ajudar. Portanto, seremos um país de boas pessoas, de queijos, de garrafas e de presuntos no Natal e na Páscoa.
Em última análise, seremos um país que aposta na comunicação e no convívio entre as pessoas. Ora, isto é sempre bonito, na óptica de alguns.
As tais “novas oportunidades” através da educação, de que o Governo fala, é uma forma de eles levarem a água ao seu moinho.
Enquanto estiveres na escola, não figurarás nas listas do desemprego.
E isso, para eles, é ouro sobre azul!
Florbela Viegas














