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Quotidianos

“VILA CHÔPor Florbela Viegas

Fitou-o uma última vez, enxugando as lágrimas com as costas da mão. Sorrindo, incerta, despediu-se com uma tristeza resignada na voz.
Ele, por sua vez, não se mexeu. Acompanhou-a com o olhar, vendo-a afastar-se lentamente, nos seus passos leves mas seguros, sobre as folhas secas, tombadas por entre as estreitas e frias alamedas.

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“VILA CHÔ Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos

Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela ia visitá-lo.
Há algum tempo que já não estavam juntos, mas ambos gostavam tanto um do outro, que era necessário que se reencontrassem, nem que fosse por um só instante.
Sentado, alheio ao que o rodeava, ele esperava-a sempre com grande ansiedade.
Viu-a quando ela surgiu ao longe, radiosa, caminhando devagar pelas alamedas sombrias e cobertas de folhas secas, trazendo nas mãos aquelas rosas vermelhas colhidas no seu jardim.
Ah se o tempo pudesse voltar para trás, para poder abraçá-la…
Ela gostava de manter aquele ritual, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto culpado, porque jamais se lembrava de lhe ter oferecido flores.
Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, mais do que no ano anterior, mais do que na época em que se conheceram, há muitos anos atrás.
Ela sorriu, também, ao vê-lo, iluminando o seu olhar triste.
Por mais que aqueles encontros se repetissem anualmente, pareciam nunca se acostumar a eles.
Afinal, reencontraram-se. Ofereceu-lhe as flores e encarou-o por um longo momento. Sabiam que agora já não havia nada a ser dito, porque o tempo se esgotou e muita coisa ficou por dizer.
Ela continuava só. Mudou de cidade e arranjou um emprego melhor, enquanto ele permanecia na mesma situação, desde a separação, alguns anos antes. Mas nenhum dos dois parecia importar-se com isso. Reviam-se e isso bastava.
Percebeu que os olhos dela ficaram húmidos e adivinhou-lhe o pensamento: "Se ainda pudéssemos estar juntos e felizes…".
Lamentava. Estava tudo acabado, já não havia jeito.
Quantos mais anos seriam necessários para ela se convencer?
Não conseguia entender a razão de tal apego dela ao passado, desejando o impossível.
De repente, uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que era hora de partir.
Fitou-o uma última vez, enxugando as lágrimas com as costas da mão. Sorrindo, incerta, despediu-se com uma tristeza resignada na voz.
Ele, por sua vez, não se mexeu. Acompanhou-a com o olhar, vendo-a afastar-se lentamente, nos seus passos leves mas seguros, sobre as folhas secas, tombadas por entre as estreitas e frias alamedas.
Ela voltaria sempre, ele sabia.
Estaria lá novamente, no próximo dia de Finados, para lhe oferecer outras três rosas vermelhas colhidas no seu jardim.
E ambos, uma vez mais, recordariam aquele tempo em que haviam estado juntos e felizes, como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

Florbela Viegas

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