Deambulando…Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos
Durmo mal.
Acordo muitas vezes durante a noite.
Às vezes, como cereais e quadradinhos de chocolate com passas e avelãs inteiras que compro, muito baratos, no Lidl que alguns dizem ser o supermercado dos pelintras.
Faço a ronda aos animais da casa: as cadelas, os peixes, o hamster, os periquitos, o papagaio e o canário amarelo.
E leio. Gosto muito de ler.
Nunca vou aos outros quartos vazios. Faço de conta que estão ocupados por todos aqueles que amei e que já partiram.
Vou para a sala e imagino que estou a tomar conta deles, a velar-lhes o sono.
Atravesso o corredor como um espectro. Acho que os meus pés nem tocam o chão. O meu corpo é evanescente, transparente. Sou capaz de atravessar paredes, voar através do tempo, falar com os mortos, dar gargalhadas assustadoras.
Sonho muito. Sempre sonhei.
Sou feita de sonhos: árvores de folhas douradas de onde caem afectos, jardins celestiais plantados no cimo da Avenida Alfredo da Silva, um tigre de Bengala pachorrento passeando, calmo, pelo Parque da Cidade, araras coloridas sobrevoando o Forum.
No Barreiro Velho, labiríntico, um homem cigano, magro como eu, sorrindo-me ao abrir a porta, convidando-me para almoçar.
Junto ao rio, velhos e crianças felizes em overdoses de amor. No ar, o perfume das flores, o calor da solidariedade, a sombra da amizade.
E, antes de adormecer novamente, a mesma imagem toma conta de mim: são dois pulsos feridos. Um corte ligeiro em cada um deles.
Lágrimas de sangue escorrem lentamente e ensopam um tapete felpudo cor de mágoa e de solidão.
Não é uma imagem terrível ou angustiante.
Não me assusta nem me preocupa.
É uma imagem como outra qualquer.
Faz lembrar as chagas de um Cristo padecente, mas sereno.
Florbela Viegas














