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Quotidianos

O ASSOCIATIVISMOPor Florbela Viegas

Mas então, e a tão falada “crise do associativismo” no Barreiro?
Há quem defenda que o associativismo atravessa ciclicamente épocas de dificuldades. Outros, que a crise não se situa no associativismo mas no dirigismo associativo, nos termos em que hoje se apresenta. A maioria defende que o associativismo, propriamente dito, não está em crise porque já não existe.

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O ASSOCIATIVISMO Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos

Há muitos temas que despertam a minha curiosidade e que gosto de abordar, talvez porque não tenha com eles grande familiaridade e não façam parte da minha realidade laboral.
Tenho manifestado, desde criança, a minha predilecção pela cidade do Barreiro, cidade que conheço e visito desde os meus três anos de idade, onde viveram os meus avós e vivem actualmente muitos dos meus parentes mais chegados e onde gostava de ter vivido naquele tempo, porque o Barreiro já foi uma cidade viva, berço de intelectualidade, nada comparável ao que é nos dias de hoje.
Sempre que posso, por aqui estou, na mesma casa que foi dos meus avós e que hoje é minha, abrindo a janela das memórias para tantas coisas boas que se esfumaram nas brumas do tempo, mas que ainda vou recordando com muita saudade e até admiração.
Alguém me disse há dias que, se eu tivesse sido educada no Barreiro, talvez não tivesse ido tão longe. O mais curioso é que foi um Barreirense, que considero dos sete costados, o autor da cogitação.
Fiquei a pensar. Sempre considerei que o Barreiro estava na vanguarda da solidariedade e do associativismo.
Disseram-me que não. Que hoje em dia tudo está em crise no concelho, a começar pelo associativismo.
O associativismo estará em crise?
Esta é uma questão recorrente que sempre se apresenta quando o objectivo de discussão ou de simples conversa é a necessidade que faz juntar os homens para a defesa ou para o desenvolvimento e dignificação de uma actividade comum que os une.
Podemos recuar no tempo, aos tempos das mutualistas do século XIX, ou até a épocas bem mais remotas. Haverá mesmo quem defenda ir à origem do ser humano, para encontrar a génese do associativismo. Sempre que o Homem sentiu que isolado não conseguiria resolver uma dificuldade, juntou-se a outros homens desejosos de resolverem problemas idênticos.
Mas então, e a tão falada “crise do associativismo” no Barreiro?
Há quem defenda que o associativismo atravessa ciclicamente épocas de dificuldades. Outros, que a crise não se situa no associativismo mas no dirigismo associativo, nos termos em que hoje se apresenta. A maioria defende que o associativismo, propriamente dito, não está em crise porque já não existe.
É complexa, realmente, esta realidade. Não se deverá tomar uma posição de forma leviana sem pesar todos os condicionalismos e envolventes. Para isso, deveriam realizar-se debates e colóquios sobre o tema, na procura de objectividade nas conclusões.
Uma das razões que historicamente levou o Homem a unir esforços, a congregar o seu saber e a sua acção à volta de objectivos comuns, foi o espírito de solidariedade. Donde, a questão para a qual urge encontrar uma resposta, é: Hoje em dia, o Homem é um ser solidário ou um ser solitário?
Como uma letrinha, apenas, faz toda uma diferença...
Um punhado de homens de boa vontade, continua uma luta sem quartel, na defesa do associativismo, esbarrando muitas vezes na falta de reconhecimento das entidades oficiais onde, cada vez mais, se conhece o preço de tudo e o valor de nada.
A conclusão que se tira é que hoje em dia já não existe o associativismo puro, resultante da vontade daqueles que pensam em si próprios e nos outros como pessoas.
O associativismo actual resulta apenas da vontade política e do poder instituído. Esta vontade actua como filtro da solidariedade e os homens hoje associam-se, não tendo em vista o bem comum, mas única e exclusivamente para garantir que a actividade comum seja apenas de uns poucos, de preferência com filiação partidária.
Neste contexto, surge então aquela dúvida metódica que nos faz pensar e questionar: será o Barreiro uma excepção?

Florbela Viegas

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