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Quotidianos

UM CONTO DE NATALPor Florbela Viegas

Não resisti. As lágrimas derramadas pelos dois, fizeram enternecer todos os presentes que não contiveram também algumas, de comoção.
Era meia-noite. Um Menino acabara de nascer, pobrezinho, em Belém. E ali, naquele mesmo momento, uma filha renasceu no coração de um homem a quem foi dada a mais bela prenda de Natal, que o fez sentir o mais rico e poderoso de todos os Homens.

Natal será sempre tempo de paz, de amor, de perdão e de amnistia.

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UM CONTO DE NATAL Por Florbela Viegas

Por Jornal Rostos

O Natal desperta diversas emoções. No entanto, sabemos que a tristeza, nesta data, invade muitos corações.
A explicação reside no facto de o Natal ser uma comemoração que sugere o encontro com a família e o reviver da infância perdida.
É nesta época que fazemos o balanço da qualidade dos vínculos mais íntimos e pensamos os caminhos que construimos e seguimos ao longo dos anos, recordando todos aqueles que outrora estiveram presentes na nossa vida e que já partiram.
É claro que, a par da tristeza, sentimos aquela alegria de rever parentes, de confraternizar e de reencontrar as pessoas que amamos ou estimamos. Também gostamos de sentir e partilhar a alegria das crianças, face à expectativa de receberem presentes e de conhecerem o Pai Natal.
Mas todo o Natal tem uma história que guardamos no nosso baú das memórias e dos sentimentos mais profundos.
Esta história passou-se numa noite de 24 de Dezembro, noite de Consoada de um ano qualquer, porque o ano nunca é importante, quando alguém está só.
Ao princípio daquela noite, depois de muitos meses ausente de Portugal, aterrei em Lisboa, sem ter avisado ninguém do meu regresso. Apesar do frio, a lua brilhava e o céu estava coberto de estrelas, o que despertou em mim uma vontade enorme de ir para casa, para estar com todos aqueles que me são queridos.
Apanhei um taxi e rumei ao Barreiro, na expectativa de fazer uma surpresa aos meus parentes que todos os anos se reunem na casa de um deles, para celebrar a festa da família e comemorar o nascimento de Jesus.
Naquela noite, porém, não iria encontrar-me com ninguém. Como não avisei do meu regresso, todos eles tinham rumado ao Algarve para passar o Natal com o resto da família.
Não havia nada a fazer. Era noite de Natal e eu estava sem carro e sem qualquer outro meio de transporte que me levasse até junto dos meus familiares, a tempo de o comemorar em família. O taxista que me trouxe do aeroporto, mostrou-se indisponível e alertou-me para o facto de eu, quase de certeza, não conseguir arranjar transporte nessa noite. Era noite de Natal e, por isso, se alguns tinham partido para longe, os que ficaram na cidade não sairiam de casa, nem deixariam o aconchego familiar.
Optei por ficar na minha casa, a mesma casa que já foi dos meus avós, com a despensa vazia e um forte cheiro a tinta, motivado pelas obras recentes, que fizeram com que eu saisse novamente, em busca de um sítio onde pudesse jantar.
Ao chegar à rua, logo verifiquei que o movimento era anormalmente reduzido, como se o Barreiro estivesse prestes a transformar-se, a qualquer momento, numa cidade fantasma. Quase não se viam carros nem pessoas. E aqueles que ainda andavam pela cidade, pareciam desvairadamente apressados, como se estivessem a fugir uns dos outros.
Calmamente atravessei a Praça de Santa Cruz. Passei em frente à esquadra da polícia e cumprimentei o agente de serviço, à entrada da mesma, que me respondeu de um modo educado mas pouco simpático. Se calhar também ele estava zangado, por estar de serviço naquela noite.
Corri todos os restaurantes. Um após outro, estavam todos encerrados e a possibilidade de encontrar algum aberto, em toda a cidade, era muito remota. Fui, por isso, deambulando pelas ruas, ao acaso, até que a determinada altura a calma era completa. O silêncio da noite era apenas perturbado pelo som dos meus passos e toda aquela solidão começou a entrar dentro de mim.
Quando passei diante do prédio mais alto da cidade, do outro lado da rua, vi alguém deitado no chão. Talvez um pobre sem abrigo, coberto de cartões e sacos de plástico. Não, não iria perturbar o repouso e recolhimento de quem, como eu, estava condenado à solidão, numa noite que deveria ser de alegria, de festa e, acima de tudo, de convívio.
Atravessei a rua caminhando em direcção à pessoa que ali se encontrava. Era um pobre velho de barbas brancas. Aparentava ter bastante idade e até nem tinha um aspecto andrajoso. Estava deitado sobre o seu lado direito, com uma mão por baixo da cabeça que apoiava num saco de plástico, como se fosse uma almofada e onde, por certo, guardaria todos os seus haveres.
A luz, proveniente do candeeiro da rua, batia-lhe em cheio na face. Por isso pude ver que, além de não dormir, o homem tinha um olhar fixo e distante e que, daqueles olhos escuros, escorriam lágrimas como pérolas.
Sem uma palavra, afastei-me e continuei a minha caminhada, não conseguindo, também, conter as lágimas que, havia algum tempo, me bailavam nos olhos e que agora livremente me rolavam pela face.
Seriam cerca das onze horas da noite quando, ao dobrar uma esquina, chegou até mim uma melodia que vinha de uma porta qualquer. Parei e pus-me à escuta. Era efectivamente música o que ouvia mas não era música de Natal. Era a voz de Jacques Brel que interpetava “Ne me quitte pas”, uma canção que muito aprecio e que considero um hino de amor e dor.
Fui caminhando ao longo da rua, seguindo a música. Tanto me fazia ir por ali como por outro lado qualquer. Estava sozinha e pior não me poderia acontecer. Passado pouco tempo descobri o local. A música provinha da porta entreaberta de um “Bar”, como dizia o letreiro luminoso de néon. Pela porta saía também o clarão vermelho da iluminação interior do mesmo “Bar Americano”.
Entrei. Estava cansada e esfomeada. Apesar de não beber, talvez um copo me fizesse bem e me ajudasse a esquecer ou a aliviar as mágoas daquele momento. Do lado de lá do balcão estava uma mulher loira oxigenada, com as raízes do cabelo pretas, que lhe davam um ar desmazelado. Sem qualquer hesitação ocupei um dos bancos em frente ao balcão. Cumprimentámo-nos trocando as habituais frases de circunstância.
Assim que os meus olhos se adaptaram à fraca luminosidade do local, verifiquei que era a única cliente. Contudo, na sala, sentadas a uma mesa, encontravam-se outras pessoas.
Eram três raparigas que ali estavam, caladas e tristes que mais pareciam estarem num velório. Três “empregadas” do estabelecimento que, um pouco mais tarde, me convidariam, gentilmente, a sentar-me à sua mesa.
Acedi sem grande esforço, ocupando o lugar vago num dos sofás, ao lado direito de uma delas, a Luisa, como depois viria a saber que se chamava.
Soube também que, como eu, aquelas três criaturas não tinham, naquela noite, ninguém com quem festejar o Natal. Ao contrário de mim, a elas não importava nada esse facto. Pelo menos era o que diziam ou tentavam demonstrar. Viria mais tarde a confirmar que não era bem assim.
Lembro-me que bebemos muito. Conversámos, rimos e até chorámos. Risos e lágrimas daquelas que muitas vezes nos saem sem motivo aparente, assim, sem se saber o porquê.
Conversando e rindo, lá fomos festejando o Natal.
Teria passado cerca de uma hora, desde que ali chegara, quando me apeteceu apanhar um pouco de ar fresco. Levantei-me e dirigi-me à porta. Já na rua, inspirei o ar frio da noite enquanto, quase sem querer, começava a rever, não só os acontecimentos daquele dia, mas também as lembranças de outros Natais, particularmente os da minha infância feliz. E, estranhamente, já não sentia a tristeza nem a angústia que me invadiram algumas horas atrás.
Estava eu mergulhada nesses pensamentos quando, sem me aperceber, alguém se aproximou de mim e me pediu um cigarro.
Virei-me repentinamente, como quem apanha um susto e, ao ouvir aquela voz, tive uma surpresa. Quem me pedia o cigarro era o velho que tinha visto deitado na rua, em frente ao prédio mais alto da cidade.
Convidei-o a entrar e, com alguma relutância, o velho homem acabou por aceitar o meu convite. Entrou no bar e sentou-se à mesa onde ainda se encontravam as três raparigas. Ocupou o lugar vago mesmo em frente à Luisa e, de inicio, não aceitou beber nada, mantendo-se alheado das conversas, sempre com aquele olhar distante.
O tempo ia passando. A meia-noite estava agora mais próxima e já todos riamos e cantavamos ajudados também pelo álcool que iamos ingerindo. É então que me lembro de perguntar ao homem o motivo das lágrimas que lhe vira no rosto, algumas horas atrás. Antes de responder, retirou do saco de plástico que trazia consigo, qualquer coisa que parecia ser uma fotografia e entregou-ma, dizendo:
– “Chamava-se Isabel. E a minha pequenina, que será feito dela? Estive preso muitos anos por actos irreflectidos que cometi. Quando saí da prisão nunca mais tive coragem, nem dinheiro, para regressar. E, se voltasse, que iria eu dizer-lhes? Tenho também vergonha. Eram os meus amores. Isabel e Luisa”
Entretanto, passei a fotografia à Luisa que, mal a viu, não pode conter uma expressão de espanto o que fez com todos nos calassemos, quando disse:
- “Mas... mas é a minha mãe!”
O silêncio tornou-se insuportável, enorme e pesado. Ninguém ousava sequer pestanejar quanto mais dizer alguma coisa. Aqueles segundos pareceram horas até que a Luisa voltou a falar:
- “ Tenho uma fotografia igual, que sempre me tem acompanhado. Esta é a única foto que tenho da minha falecida mãe. Meu pai?! Se Isabel era sua mulher então sou eu a sua filha, sim”.
Não resisti. As lágrimas derramadas pelos dois, fizeram enternecer todos os presentes que não contiveram também algumas, de comoção.
Era meia-noite. Um Menino acabara de nascer, pobrezinho, em Belém. E ali, naquele mesmo momento, uma filha renasceu no coração de um homem a quem foi dada a mais bela prenda de Natal, que o fez sentir o mais rico e poderoso de todos os Homens.

Natal será sempre tempo de paz, de amor, de perdão e de amnistia.

Que todos tenhamos um pouco de Natal.

Um Santo e Feliz Natal para todos.

Florbela Viegas

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