Taekwondo - complexidade técnica avaliada por sensores de pressão?Por Horácio Lopes
O Taekwondo vive neste momento um clima conturbado próprio de uma modalidade que, do anonimato, alcançou a notoriedade em poucos anos.
Sendo claramente um produto de exportação da Coreia do Sul para o mundo ocidental, o modelo desportivo da modalidade sofre diariamente actualizações que não são mais do que tentativas para encontrar o equilíbrio entre o que os praticantes estão interessados em treinar, o que os espectadores pretendem ver e o que os patrocinadores se disponibilizam a custear.

Por Jornal Rostos
A tendência mundial de concentração empresarial em grupos económicos gigantes, tem nos últimos anos, conduzido a uma redução da quantidade de empresas interessadas em patrocinar grandes provas desportivas.
Estas empresas, munidas de uma lógica mercantilista, estarão dispostas a pagar por espectáculos desportivos que, não contrários a sua missão empresarial, contribuem para a sua visibilidade e notoriedade junto dos clientes e, claro, promovem vendas.
Será que podemos afirmar que a existência de grandes espectáculos desportivos está condicionada à existência de grandes patrocinadores? Claro que sim!
E o que acontece quando os patrocinadores, munidos da tal lógica mercantilista, entendem que o espectáculo que lhes é proposto não gera visibilidade suficiente para os seus produtos?
Mudam-se as regras do jogo! Estaremos ou não reféns dos patrocinadores?
A nossa modalidade prima por não ser demasiado dispendiosa.
Rapidamente evoluímos de um período onde os pontos eram atribuídos em papel, feitas as contas também em papel e publicadas manualmente num placar, até ao período em que se generaliza o uso de marcadores electrónicos. Os pontos chegam a placares electrónicos depois de atribuídos pelos juízes com recurso a joystick pessoais, e processados por um software que aplica as regras.
Hoje em dia utilizamos um tapete adequado onde se desenrola a prova sem necessidade de calçado (tatami), equipamento de gestão de prova constituído pelos marcadores electrónicos e ainda por um software de gestão que faz o cálculo de pontuações individuais e por equipas e permite uma gestão integral ao segundo. O restante material, todo de baixo custo, é de uso pessoal.
Mais recentemente foi desenvolvida a tecnologia de coletes electrónicos com o objectivo de eliminar o factor humano na utilização dos marcadores electrónicos para atribuição de pontos.
Decorridas inúmeras provas, conclui-se que, apesar de ter sido uma experiência positiva em alguns casos, houve outros em que foi extremamente negativa.
Sendo uma actividade de intervenção humana em que estão envolvidas emoções e uma componente técnica de alto nível, a ausência de intervenção humana pode ditar o afastamento de muitos atletas e o aparecimento forçoso de uma nova geração adaptada a uma nova realidade.
Hoje o Taekwondo de competição corre o risco de uma descaracterização completa face à modalidade que conhecíamos à uns anos atrás.
A adopção dos coletes electrónicos um exemplo claro de tentativa de conquista de mais público e consequentemente de patrocinadores.
Será que se pretende colocar o Taekwondo ao nível da esgrima em que tudo é decidido electronicamente? Será que a esgrima conquistou mais público com essa alteração?
A utilização de tecnologias que provaram ser eficazes noutras modalidades não implica o mesmo sucesso na nossa modalidade. Concorre para esta realidade o facto de que, numa competição de Taekwondo, quando o desenrolar desportivo da prova é desfavorável a um atleta, a sua integridade física é sempre colocada em causa. Isto porque estamos a falar de uma prova desportiva que se desenrola através do contacto físico directo e intencional entre dois atletas, resultando desse contacto a acumulação de pontos. Ou seja, quanto mais impacto ocorrer no meu adversário mais “sucesso desportivo” eu tenho!
Com intervenção humana por intermédio de juízes, os impactos são avaliados subjectivamente (quer queiramos quer não), com apreciação de potência e também de contexto. Com intervenção de máquinas, os impactos são avaliados electronicamente através de sensores de pressão (avaliam a potência de impacto). Uma técnica de muito difícil execução que gera uma pressão 5% abaixo do limite mínimo considerado para pontuação válida não resulta em ponto, enquanto uma técnica mal executada, com índices técnicos fracos, mas com 5% de pressão acima do limite mínimo resulta em ponto. Será este o ideal de competição desportiva de uma modalidade marcadamente técnica?
Nesta perspectiva, pergunto, será sensato deixar que “as máquinas” tomem controlo do resultado desportivo de um combate de Taekwondo? Claro que não!
A preparação técnica e táctica, necessária aos atletas para participação em provas de Taekwondo, é que sofre com a incerteza que actualmente se vive. Atente-se que, em termos técnicos e tácticos, o uso de coletes electrónicos transforma completamente a prova desportiva de Taekwondo.
Hoje em dia é necessário dotar os atletas de Taekwondo da flexibilidade de se adaptarem às condições específicas de cada prova com muito pouca antecedência. Isso aponta-nos para um conjunto de atletas mais preparados e com mais vocabulário técnico e mais tempo de preparação.
Desde o início da competição desportiva internacional que uma das grandes divergências e zonas cinzentas da arbitragem foi a atribuição de pontos a técnicas de braços (jireugi). Hoje observamos a atribuição de títulos Europeus com 1 ponto conseguido com 1 jireugi!
Pelo caminho ficam atletas que, habilitados a disputar os lugares do pódio até à bem pouco, são “confrontados” com uma nova realidade desportiva que “desconheciam”.
Em países como o nosso, em que os recursos financeiros são escassos, a aquisição e difusão de coletes electrónicos não poderá ser uma decisão de expediente mas fruto de um estudo e planeamento aturado, com base num contexto de estabilidade avalisado pela ETU e WTF.
A escassez de recursos financeiros indica-nos ainda que, uma vez tomada a opção de adoptar os coletes electrónicos, entramos num caminho em que o regresso não se faz pela mesma estrada, sendo mais que uma opção, um compromisso de longo prazo que condicionará outras opções e vontades.
No meu entender a melhor opção não passará por andarmos atrás das decisões da ETU e da WTF, sobretudo ao ritmo em que se propõe alterações às regras de competição, mas sim, traçarmos o nosso caminho para a modalidade em Portugal, certos de que, em circunstância alguma teremos a possibilidade de acompanhar o ritmo de mudança que estas duas instituições nos impõem.
O primeiro tatami completo para prática de Taekwondo chegou a Portugal em 1993, trazido para Escola de Taekwondo do Casal Novo onde então dava as minhas aulas. Passados 15 anos, ainda há pessoas a treinar em tacos de madeira, cimento e alguns em situações piores.
Quantos anos levará uma adopção generalizada dos coletes electrónicos por parte dos Clubes e Associações? ...demasiados, digo eu...
Horácio Lopes
Director Técnico e Desportivo da Federação Portuguesa de Taekwondo
Licenciado em Gestão e Mestrando em Gestão e Direcção Desportiva
Mestre de Taekwondo, 5º DAN














