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Quotidianos

O desembargo de CubaPor José Assis

Assinalados que foram os cinquenta anos da denominada revolução cubana (seja lá com isso o que se quiser significar) o discurso comemorativo do aniversário, proferido pelo actual dirigente cubano Raul Castro, ao invés do que se poderia pensar há alguns anos, foi de preocupação quanto ao presente e de projectar um futuro diferente do modelo vivido desde o inicio da condução Castrense naquele país.

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O desembargo de Cuba Por José Assis

Por Jornal Rostos

O novo ano, iniciado ou continuado sob os nefastos auspícios da guerra e com a ONU a tentar reconquistar o terreno perdido ao longo dos últimos tempos, querendo impor a sua, aliás legitima -por natureza- , força de organização mundial para a ordem internacional, (porque assente na força da razão e não o inverso) indo mais além do que a UE no conflito do Médio Oriente, com a classificação da investida Israelita em Gaza como uma operação militar que deve cessar imediatamente, se não for secundada por vontade política de solução e de igual intensidade, na medida em que é hostil e excessiva contrariamente a uma acção num quadro de defesa proporcional e legitima, como parece fazer crer a Presidência Europeia Checa , trouxe-nos também um sinal de possível mudança em Cuba.

Assinalados que foram os cinquenta anos da denominada revolução cubana (o que tal significar para cada uma de nós) o discurso comemorativo do actual dirigente cubano Raul Castro, ao invés do que se poderia pensar há alguns anos, foi de preocupação quanto ao presente e de projectar um futuro diferente do modelo vivido desde o inicio da condução Castrense naquele país.

Não se trata só do que terá afirmado Raul quanto á sua vontade, ou disponibilidade, em conversar pessoal e directamente com a nova administração americana que será empossada neste mês de Janeiro. O próprio discurso, instrumento tradicionalmente relevante no regime Cubano e que levou Fidel a bater todos os recordes de tempo nessa matéria, apontou para uma alteração, não se sabendo, ainda, se para um modelo porventura mais sectário e centralizador ou se, pelo contrário, a caminho de uma abertura propiciadora á integração de Cuba como Estado moderno e democrático, aliviado de factores exteriores que possam ser invocados como exclusivamente culpados do insucesso objectivo do modelo imposto por Castro , mesmo para os que ainda defendem a revolução como um processo sem fim á vista com um horizonte contínuo de prosperidade.

Em boa verdade, do balanço efectuado sobre a "experiência revolucionária" em Cuba, cujos cinquenta anos de vivência já permitem afastar a ideia de experimentalismo, desde logo, ressalta o falhanço nítido de um modelo politico e económico, baseado em pressupostos transpersonalistas, elevados ao seu limite máximo que, por isso e por tudo o resto associado, impediram o desenvolvimento social, cultural e humano do povo cubano . Contudo, não deixa de ser curioso que desse balanço, mesmo os oposicionistas mais acérrimos ao modelo cubano , assumam que o modelo Castrense afunilou num paradoxo. Quer isso dizer que as bandeiras do modelo como sejam o acesso gratuito ao ensino e á saúde, praticado em Cuba, ou os níveis alcançados nessas matérias ,serão dois exemplos do que de bom pode haver de dois mundos, na perspectiva de um só .

A questão é saber se poderemos exigir o bom de dois mundos, esquecendo propositadamente o que de mau, naturalmente, existe; ou se devemos ser realistas e intransigentemente defender os valores personalistas assentes no humanismo, na base dos quais devemos querer construir o mundo.

Yoani Sánchez, oposicionista do regime Castrense, em entrevista dada recentemente á revista Visão deu-nos ao conhecimento que " Muitos recém licenciados cubanos trabalham lá fora em lojas, bares e discotecas ". Eis, portanto, a confirmação do paradoxo. Claro está que Yoani terá a noção de que em paises ocidentais como, por exemplo, Portugal o mesmo sucede. Mas a estranheza e a contestação de Yoani faz-nos, paradoxalmente, pensar se, por vezes, sabemos para onde queremos ir. Obviamente que Yoani está cheia de razão e quando afirma,ainda nessa entrevista, que ( em Cuba) : " Uma pessoa que pensa de maneira diferente é logo apelidada de assalariada do império ", todos compreendemos o que não devemos querer.

Com a destruição de Guantánamo e o inicio da descoberta da verdade material do que aí se passou, do que ainda se está a passar e a imposição ética de não se passar uma esponja sobre o que permitiu Guantánamo , a administração de Obama deverá também tentar alinhavar o diálogo com Cuba, no sentido de que o embargo a que está sujeito o país de Castro seja retirado. Medida prudente? Penso que sim, se e quando forem dadas as garantias de que o balanço de cinquenta anos Castrenses é produzido e assumido com realismo, por parte dos seus actores, bem como que a América Latina envolvente percebe que o inimigo não são os povos, nem os países, mas sim a exclusão provocada pelo obscurantismo e pela falta de democracia que leva á opressão , essa sim a prova raínha do paradoxo, esteja o mesmo onde estiver.

O posicionamento holistico para a solução global dos problemas é um posicionamento correcto, subsistindo , no entanto , sempre a velha questão , porquanto se trata de um posicionamento obrigatoriamente multilateral , que é saber se o destinatário do posicionamento quer ser parte do problema ou da sua solução.

O desembargo está próximo, e a mudança de mentalidades está em curso em abono do que se possa colher do melhor de dois mundos. A revolução está em marcha e o exemplo de Cuba ficará para a história como um exemplo ... histórico, acreditando que só daqui a cem anos se poderá perceber o que realmente se passou. Até lá manda o bom senso o regresso á vida normal, sem embargo de mudança brusca. Até á vitória siempre.

José Assis
-Vereador Socialista na C.M.Seixal

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