A minha geração foi ensinada a pouparPor José Bastos
Existem sinais perigosos que podem abalar a nossa economia e por em causa o nosso bem estar colectivo.

Por Jornal Rostos
A minha geração veio ao mundo num momento muito difícil. Sofremos os efeitos da segunda guerra mundial e muitos de nós fizeram as guerras em África.
Sabemos o que é uma vida no limiar da pobreza e zonas urbanas sem infra-estruturas e nenhumas condições de higiene.
Vivemos períodos com os bens alimentares racionados.
Não tínhamos água canalizada, esgotos e a maior parte das pessoas não tinham habitação condigna. Casas de banho era coisa de ricos. Uma boa parte dos rapazes andavam descalços.
As fábricas estavam muitas vezes a três dias e os trabalhadores rurais só ganhavam os dias que trabalhavam. No campo o trabalho era de sol a sol.
As ruas ficavam inundadas com os dejectos dos animais e existiam porcos e galinácios a debicar os esgotos nas ruas.
As doenças eram muitas e a mortalidade infantil atingia números muito elevados.
Não havia Serviço Nacional de Saúde, nem fundo de desemprego, nem reformas.
A idade média de vida andava pelos cinquenta anos/sessenta anos.
Era impossível os trabalhadores recorrerem ao crédito e mesmos os pequenos proprietários só o conseguiam a juros agiotas e acabavam por ficar sem as suas propriedades.
Por tudo isto fomos ensinados a poupar e a não gastar mais do que aquilo que ganhávamos. Tínhamos até que poupar para as situações extremas.
A alimentação era fraca e muito repetitiva. Ao jantar era sempre sopa de feijão com hortaliça, toucinho e chouriço. Ao Domingo sopa de Carne.
Assistimos ao progresso. Vimos o primeiro homem chegar à Lua, ao aparecimento do tractor e outras máquinas agrícolas, máquinas industriais, automóveis, aviões e electrodomésticos, televisões, supermercados, turismo, restaurantes, férias, internet e grande abundância de produtos alimentares e roupas. A vida mudou completamente na minha geração.
Como conheci outra vida muito diferente da que agora vivemos para pior, penso que isto pode dar uma volta e caírmos outra vez no fundo.
Foram só cinquenta anos a melhorar e o mundo tem milhões de anos.
Em 1973 tivemos o primeiro choque petrolífero e apanhámos um grande susto. A inflação na Europa e em Portugal ultrapassou os 25%.
O aumento do petróleo causa-me sempre grande preocupação, pois trata-se de um bem finito, que em muito contribui para o nosso desenvolvimento e bem estar. No primeiro semestre do ano passado o petróleo atingiu os 147 dólares por barril. O nosso país passou por momentos muito difíceis com a greve dos camionistas e dos pescadores. Lembram-se das pessoas a protestarem junto das bombas que os preços dos combustíveis eram incompatíveis com o que eles ganhavam e do facto dos supermercados ficarem vazios por serem abastecidos pelos camiões.
Tudo isto prova que de um momento para o outro a vida como a conhecemos pode mudar.
No terceiro trimestre do ano passado o petróleo, começou a descer, está agora a menos de 50 dólares por barril, porque o mundo foi atingido por uma grave crise financeira, com consequências gravíssimas na economia.
Com a economia em recessão nos E.U.A. e na Europa o preço do petróleo tinha que descer.
As previsões dos economistas, nestas crises, raramente acertam, mas o que já sabemos é que quando a economia cresce o petróleo sobe e se ela entra em recessão o preço do petróleo desce.
A minha geração foi ensinada a poupar, para poder sobreviver. Consumíamos muito pouco nos primeiros tempos e não tínhamos um estado social para nos garantir fosse o que fosse.
Existem sinais perigosos que podem abalar a nossa economia e por em causa o nosso bem estar colectivo.
Todos têm que tomar algumas precauções e não podem continuar a endividar-se. O crédito encurta o tempo entre o desejo e a satisfação, o marketing do consumo percebeu isso e pôs uma grande quantidade de pessoas a gastar no presente aquilo que iam ganhar no futuro, pagando por isso elevados juros.
A minha mãe dizia-me que os juros comem com a gente à mesa e o que tem que se hipotecar vende-se.
Dizia-me também que era necessário nós termos uma boa cabeça para nos governarmos.
José Bastos














