Perversidades da (des) InformaçãoPor David Leite das Neves

Por Jornal Rostos
Esta semana assistimos ao rescaldo do “caso Freeport”. Durante cerca de duas semanas as televisões e os jornais abriram as suas edições com revelações sobre este assunto, alimentando a crença de que somos governados por um primeiro-ministro corrupto. No auge deste caso, Felícia Cabrita – a jornalista do Sol autora da “investigação” – não tinha dúvidas em afirmar a existência de “conluio e luvas”, referindo que neste caso “Um dos homens-chave português é designado por Pinocchio ”. Oportunamente a JSD, com a originalidade e inspiração a que nos habitou, colocou um cartaz apelidando o primeiro-ministro de “Pinócrates” (relembrando-nos o cartaz que colocou em 2005 quando corriam outros boatos…).
Após “vastíssima investigação”, ficámos a saber que não houve nenhuma irregularidade na aprovação do Freeport, que José Sócrates participou numa reunião pedida pelo presidente da Câmara Municipal de Alcochete – na qual estiveram os técnicos responsáveis pelo licenciamento e o Secretário de Estado – sendo que não teve lugar uma outra reunião pedida pelo seu tio. Sabemos também que o primo de José Sócrates tentou vender os seus serviços ao Freeport, invocando abusivamente a sua relação familiar, sendo a sua proposta recusada.
Em 2005 as mesmas notícias foram divulgadas pelo desaparecido Independente, quatro anos depois é o Sol que recupera o “tema”, no entanto também entre os semanários que “investigaram” o “caso Freeport” existe uma coincidência curiosa: a 22 de Janeiro (antes das noticias “explosivas” do Sol) o Público noticia que o Sol pode ver a sua publicação interrompida uma vez que “já não dispõe de meios para proceder ao pagamento das suas obrigações, entre elas o pagamento de salários”.
Independentemente do juízo que se possa fazer sobre as políticas do governo de José Sócrates e do Partido Socialista, criou-se uma suspeita de corrupção e imoralidade em torno do primeiro-ministro, algo que é relativamente eficaz (apesar da ausência de provas) uma vez que vai ao encontro da representação que parte dos portugueses faz da classe política da democracia.
Este clima de suspeições lançado sobre José Sócrates, e o consequente reforço da desconfiança em relação aos políticos, é propício à crença no perigoso mito de honestidade e despojamento dos políticos da ditadura, completamente personificado por Salazar. Inspirado noutra obra de Felícia Cabrita (Amores de Salazar) estreia este domingo uma mini-série intitulada A Vida Privada de Salazar. No site da SIC já se encontram algumas cenas, bem como a descrição da série. É-nos dito que o ditador “tinha, afinal, uma turbulenta vida afectiva”, sendo apelidado de “cupido de Santa Comba Dão” (a Wikipédia define Cupido como “um ser mitológico que encarnava a paixão e o amor em todas as suas manifestações”). A série promete também um “conjunto de revelações sobre a ética política do ditador português”. Nas imagens disponibilizadas no site podemos ver Salazar em provocantes trocas de olhares e calorosos beijos em verdes campos…
A SIC pretende dar a conhecer em dois dias um Salazar apaixonado e caloroso, bem diferente daquele que os portugueses conheceram durante os quarenta anos em que governou o país, onde era proibido andar de mãos dadas ou beijar em público (punido com 2$50). Uma nação contaminada pela avareza existencial do ditador que condenou o seu povo à “alegria da pobreza”, ao analfabetismo (40% da população) e à guerra, que reprimiu a expressão do livre pensamento através dos mais cruéis meios (torturas, prisões e deportações).
É contra esta dupla perversão que me manifesto. Sob a capa da inocente e colorida ficção, branqueia-se o passado comprovadamente condenável do ditador português. Enquanto que, na sua acção aparentemente neutra, os média julgam arbitrariamente José Sócrates, sendo indiferentes à inexistência de provas e à origem da informação. Actuando como poderosos agentes modeladores das condutas sociais, criam duas representações falaciosas e perigosas “o homem íntegro e incorruptível” (encarnado pelo ditador) e o “oportunista e corrupto” (José Sócrates, político democraticamente eleito).
Apesar de tudo, não deixa de surpreender a atitude do PSD, publicamente afirma manter a confiança institucional no primeiro-ministro, no entanto a JSD utiliza subtilmente o outdoor “Pinócrates” como instrumento para fomentar a difamação, esperando capitalizar com o crescimento do “mito salazarista”, já que a principal vantagem comparativa da líder do PSD é uma forçada imagem de seriedade e rigor.
David Leite das Neves














