“E Deus criou a Mulher”Por Florbela Viegas
Como mulher e ser humano que sou, e porque tudo quanto é humano me diz respeito, pergunto-me muitas vezes se não terá razão quem suspira: Como tudo seria mais fácil, se Deus tivesse nascido mulher!

Por Jornal Rostos
Por muito que custe a certas feministas, os valores da sociedade actual são cada vez mais predominantemente masculinos e, por isso, ainda se comemora o Dia Internacional da Mulher.
Nunca dei importância ao Dia da Mulher, nem à necessidade de haver um dia que a celebre.
A minha ideia de igualdade diz-me que, se não existe um dia que celebre o Homem, por que motivo terá de haver um dia especialmente dedicado às mulheres?
Mesmo a discriminação positiva, que não passa de uma discriminação, evidencia o facto de haver a necessidade de nos quererem impor qualquer coisa, seja ela uma quota de sexos, de raças, de limitações ideológicas, físicas ou mentais, de crenças ou a obrigação de programar um dia para pensar, especialmente, em qualquer coisa.
Com a idade, os olhos vão-se abrindo para outras realidades que não só as que me rodeiam, e vou constatando que, hoje em dia, cada vez mais, são necessários símbolos para fazerem as ideias perdurarem e singrarem e que, apesar de tudo, ainda existem muitas mulheres para quem, mesmo que seja num único dia do ano, um tratamento especial será bem acolhido e desejado.
Não celebro o Dia da Mulher mas hoje apetece-me falar dele, apetece-me falar delas, apetece-me falar de nós.
O que é ser Mulher neste início do século XXI?
Decorreram já muitos anos desde o início do chamado movimento de libertação sexual e social da Mulher. Não temos qualquer dúvida em afirmar que desde aí muita coisa mudou. A Mulher adquiriu direitos e ganhou autonomia, assumindo-se de uma forma participativa na sociedade, mantendo, contudo, o seu papel na família.
Com o derrube dos modelos arcaicos, caíram também os preconceitos que a mantinham presa a uma teia inibidora de tarefas domésticas, vedando-lhe o acesso a uma carreira profissional e a uma vida independente. Esta mudança talvez tenha sido uma das maiores transformações sociais que ocorreram na segunda metade do século passado.
Ironicamente, porém, o que foi então apregoado como chavão revolucionário, acabou por ser aquele que menos evolução registou: a sexualidade.
Sem dúvida que muitos preconceitos e tabus foram derrubados e a Mulher, hoje, pode afirmar a sua sexualidade de uma forma mais livre e descomplexada. Mas terá sido suficiente?
A questão é que, no que respeita ao amor e ao sexo, nunca chegou a haver ruptura. O que a Mulher procura, hoje, continua a ser o que sempre procurou. Pode vir revestido de outros apetrechos mas a procura do elixir da felicidade feminina mantém-se inalterada.
A Mulher continua a ser aquilo que sempre foi: aquele ser romântico, sensível, que gosta de amar e de ser amada, que gosta de ouvir poesia, de dançar e de jantar à luz das velas. É alguém que gosta de ser lembrada, de ter o seu coração preenchido, de se dedicar a alguém e que esse alguém lhe seja dedicado e a respeite. A felicidade máxima é alcançada quando a sua alma fica impregnada por esse belo sedativo que é o amor verdadeiro. Só através dele ela é capaz de projectar toda a sua criatividade e toda a sua energia. A Mulher sempre foi e continua presa ao amor, para o bem e para o mal e esse amor não é vivido de uma forma abstracta, mas sim concreta no dia-a-dia, no seu lar.
Mas não foi isto que a revolução sexual trouxe. Em vez desse amor, foi o sexo que foi catapultado para o centro das atenções. A Mulher foi transformada num símbolo sexual que serve para vender tudo, desde computadores a sabonetes. A sexualidade foi reduzida à sua forma mais crua e despida de sentimentos: o corpo, o sexo explícito e desligado. O sexo é transformado numa espécie de exercício físico, onde a performance e aspecto físico do parceiro serve de barómetro da intensidade de um falso amor que em nada lhe diz respeito.
Creio que a revolução sexual mais importante e que nunca foi concluída, nem sequer debatida, é a revolução sexual masculina. Isso é bem visível no plano sexual onde predominam os conceitos de que o sexo deve ser a procura egoísta do prazer, desprovido de contexto, desprovido de sentimentos, onde se valoriza a vida libertina em detrimento da vida familiar estável, onde se cultiva a adulação do corpo, relegando para terceiro plano a riqueza interior. Estes valores, que se impregnam efusivamente na mente dos nossos jovens e dos nossos velhos, são o que de mais corrosivo existe para o bem estar emocional da nossa sociedade.
Será que a Mulher se revê neste modelo de sexualidade?
Longe disso. No plano sexual talvez a Mulher se sinta hoje mais realizada, ou pelo menos mais livre de se realizar. Porém, no plano sentimental, e no que respeita ao entendimento com os homens, pouco ou nada mudou.
A Mulher tem sido, ao longo dos tempos, a eterna entidade que se molda, que se ajusta, que não se impõe, que não rompe, antes se integra.
A Mulher de hoje é livre e exigente. Não se resigna à sua sorte, procura mudá-la. Não tem preconceitos em romper e ir sozinha em busca da felicidade.
Já é tempo de ela se afirmar e dizer basta e de travar uma luta silenciosa pelos valores profundos em que acredita. É tempo de falar de amor incondicional, de emoções, de entrega, de compromisso, de sinceridade, de compaixão e de amizade. Não ter medo que as lágrimas lhe escorram dos olhos, não ter medo de sorrir, não ter medo de ser ela mesma, não ter medo de impor a derradeira revolução sexual: a dos homens.
O aviltamento da mulher é omnipresente em todas as línguas, a todos os níveis e em todos os registos. Na linguagem vulgar de certos estratos sociais, a mulher é frequentemente reduzida, no acto da fala, ao seu órgão sexual, e por ele designada. Ela não é a companheira numa relação a dois, mas apenas um produto de consumo, algo que se “come”, porque neste universo de predomínio masculino, o homem institui-se a medida de todas as coisas.
Para mim, ser Mulher é ser eu própria, é sentir com força a vida, é fazer aquilo que gosto, como gosto, é assumir que sou igual mas diferente e apreciar essa diferença. É dividir-me e repartir-me pelos muitos objectivos que tenho. É apreciar a sensualidade, a emotividade mas também a razão e a lógica. É gostar de partilhar, de ensinar e de aprender.
Não precisam de me perguntar: É claro que não sou feminista. Salvo melhor opinião, só tem necessidade de o ser quem tenha qualquer respeito pelos machistas. Coisa que eu não tenho.
Como mulher e ser humano que sou, e porque tudo quanto é humano me diz respeito, pergunto-me muitas vezes se não terá razão quem suspira: Como tudo seria mais fácil, se Deus tivesse nascido mulher!
Florbela Viegas














