Mercado Submergente ? Não, obrigado.Por José Assis

Por Jornal Rostos
A política externa Norte Americana já deu sinais de efectiva mudança. Na verdade, a abertura para o diálogo com os Talibãs moderados, com o Irão e uma nova era com a Rússia, são boas noticias do que pode ser o novo ambiente diplomático dos EUA, protagonizado por Hillary Clinton. Em boa hora Obama convidou Clinton para desempenhar o cargo de Secretária para a politica externa na sua administração e em boa hora o convite foi aceite.
Não será por acaso que Obama dedicou maior ênfase, neste momento, à politica externa, seja a mesma diplomática com o fito claro de pacificar zonas do globo que urge pacificar, seja na sua participação no encontro do G-20, em Inglaterra, aproveitando para se fazer acompanhar da sua esposa. Um novo clima parece querer surgir.
Todavia, não deixa de ser interessante o que pensam os analistas Norte Americanos quanto á cimeira do G-20. Em especial aqueles que fazem dessa visita um ponto de viragem mas que, fazendo-o, recordam que não se deve passar do "oito ao oitenta" e que o sistema económico e financeiro, apesar de um imperativo de mudança que é transversal a todos os que se pronunciam, deverá manter a sua matriz capitalista, por definição, que abranja o maior número de autores autorizados.
Eu digo: ora nem mais. De resto, essa questão de mudança de sistema não se colocou nos EUA. O que se coloca é a questão da necessidade de regulação dos mercados que, naturalmente, impedirá, se e quando eficaz, o total desfazamento que actualmente existe entre o mercado financeiro e a economia real, bem como uma repartição da riqueza assente quase exclusivamente, por causa directa desse desfazamento, na expeculação e, por isso, injusta.
Após um "estado de alma", próprio de uma eleição recente com as expectativas que trouxe ao mundo, Obama tem uma imprensa interna já a exigir coisas concretas e os Republicanos a não desarmar na oposição ao que, já apelidaram, de um "Presidente Socialista".
O primeiro conjunto de medidas de combate ao desperdício e à injustiça na atribuição de bónus indecorosos, que lamentavelmente e contra as boas práticas, só premiaram o fracasso e fomentaram a cultura da gestão alucinada e doente dos liberais, o alargamento dos poderes de supervisão da FED e o modo descomplexado como Obama assumiu o investimento público como meio eficaz de combate ao desemprego, e, sobretudo, a coragem no modo como retirará os produtos financeiros tóxicos do mercado, com a previsão de aquisição de instituições financeiras, se caso disso, para o efeito e com o dinheiro dos pagadores de impostos, alertou os analistas e até o Nobel da economia de 2008, que logo vieram á praça pública,tentar colocar travões, embora de forma suavizada, ao ímpeto presidencial.
O paradoxo que poderá ser criado pela nova atitude Americana aflige os americanos. Mais abertura ao mundo porquanto é necessário acompanhar a globalização,abertura e, portanto, exposição ás regras externas com influência na economia americana que podem condicionar a sua própria retoma. Os Europeus desejam uma América consumidora. Os Americanos querem uma América que os defenda e que lhes garanta, em primeira linha, protecção social e emprego. Os Europeus não vão querer o dólar muito valorizado, mas também não quererão, como os Americanos também não deveriam querer, o regresso ao capitalismo financeiro sem regras. Os Europeus têm que se organizar e convencer os Estados Eurocépticos para o bom caminho. Na América, por enquanto, não se vislumbra a queda do regime federal.
Diz Maurren Dowd,economista americana, que tu sabes quando estás (americanos) em apuros, basta a Velha Europa obrigar-te a ser socialista (tradução livre). E ela tem razão porque nós estamos em apuros por causa do subprime americano e das fraudes cometidas por Madoff e seus pares, entre outros fenómenos neoliberais que se passaram.
A cimeira do G 20 está bipolarizada : EUA vs Europa. E como as coisas estão parece que só nesse espaço de interesses se vai discutir o futuro, com os Americanos a clamar veladamente pelo proteccionismo e os Europeus a resistir disfarçadamente à liderança Americana no quadro económico global.
Os ditos países emergentes manter-se-ão nessa condição. Os demais poderão submergir face ao ritmo imposto pelo mundo ocidental e pelos mercados ainda ditos emergentes.
Portugal está num centro geoestratégico invejável. Se não aproveitar para fazer a ponte angariadora de vantagens entre os diversos pólos, pode correr o risco de não passar de um Estado Membro da UE igual a tantos outros. Agora começamos a entender melhor a boa diplomacia dos negócios deste Governo e, cada vez menos, a perceber Francisco Louçã, o único que conseguiu não gostar de Angola.
José Assis














