O Limiar da LoucuraPor Pedro Graça Lopes
Vivemos tempos de Espanto. Num momento em que alguém fala de mercado e livre concorrência, se essa pessoa não for de direita, significa muito frequentemente que vamos suportar novas medidas para os bolsos e os cofrezinhos de muitos “penduras” também.

Por Jornal Rostos
Falou-se, em tempos não muito distantes e em que as discussões eram acesas e sinceramente preocupadas, do resultado final na liberalização do preço dos combustíveis em Portugal. Falava-se em pouca eficiência e incapacidade do Estado na regulação e supervisão dos operadores, num comportamento da flutuação de preços típico de cartelização generalizada, de um certo desnorte no compromisso da empresa recém-privatizada e ainda com uma grande componente accionista de capital público (não sendo um promotor de estabilidade, indispensável na altura). Foram feitos estudos sobre estudos, auditorias sobre auditorias e que enquadravam todos os parâmetros do que se pensava ser, baseado em aumentos sucessivos medidos ao minuto, uma alegre combinação entre pares, foram realizadas comparações a nível internacional e nacional, foi debatido o brilho no olhar de alguém que, com a corda no pescoço, sobe lentamente as poucas escadas que restam para o alçapão. Que aconteceu desde então? Não se ouviu ainda falar de nenhuma acção de fiscalização e controle posterior junto dessas empresas, não se sabe do planeamento estratégico que inscreva precauções contra um ressurgimento do mesmo fenómeno sobre essas condições, não há registo de mais acções que procurem as equivalências, ou não, entre o preço da matéria-prima e o custo do produto para o consumidor, agora que nada resta desse tempo e as reservas de crude estão a abarrotar e nos querem vender ainda mais. Não se aplicam aqui também as máximas e princípios do bom velho e muito apregoado Keynes de que, em tempos de melhores condições de mercado, se devem tomar as medidas que visam a optimização de recursos na gestão global e de salvaguarda para a utilização de um bem ou produto essencial (ele falou em capital, o que também é muito importante).
Meus amigos, temos a capacidade, temos a experiência, falta-nos tempo, talvez, e algum distanciamento para nos prepararmos. O problema do crude foi resolvido à nossa maneira… esperar que passe e nada de muito alarido. O facto é que foi assim resolvido. As empresas estão a funcionar, o gasóleo e a gasolina vieram para ficar e as entidades estatais de supervisão passam os dias a controlar sem sossego, como lhes compete. Agora é esperar para ver se resultou ou não, e como ninguém fala sobre isso…
Agora querem aplicar o Keynes aos remédios. Há muita doença. Pretende-se, segundo percebi, comprar logo uma remessa anual, que vem com desconto e tudo, para todo o Continente e Ilhas. Onde já se viu? Este ano esperam-se 30 gripes e onze enfartes (ou princípios dele) na Terceira… Se não fossem tão diferentes de nós, diria que tinha finalmente percebido porque usam máscaras os japoneses constipados… é para enganar o Estado. Um medicamento, um fornecedor que ganhou concurso para o abastecimento maciço do País, eis o paradigma da poupança. No entretanto ficam as remessas, a fidelidade à qualidade, o controlo de stocks (tendo em conta o prazo de validade, que também pode ser optimizado futuramente, por mais uns cêntimos, claro), a distribuição e a contribuição. Pergunto-me o que terá, afinal, Keynes a ver com esta aberração… É olhar para o lado…
Se tivesse-mos garantido e pago (embora com um bom desconto) o fornecimento equivalente a um ano de tratamentos de determinado sintoma ou doença em Portugal a um laboratório de genéricos menos ortodoxo e se esse laboratório tivesse sentido os efeitos da actual crise, no pior sentido do termo (falindo em algum lugar do mundo, entenda-se), estaríamos agora sem uma quantidade muito significativa dessa quantidade que se estimou necessária, teríamos de interpor um processo cível sobre o incumprimento do contrato em algum tribunal internacional (ainda éramos capazes de ficar cá com umas quantas máquinas), lançar um novo concurso (em que se sabia, à partida, da necessidade urgente do produto por uma das partes, e isso nunca é bom para o negócio), e garantir, talvez a manutenção desse laboratório “vencedor” como fornecedor de mais dois ou três remédios por não-sei-quantos anos. Isso acontece em crise, como em aquisições de empresas (laboratórios) por outras... mais….
Keynes era um economista. Se não falou no perigo de posteriores situações de virtual monopólio nas suas teses sobre o papel do Estado na gestão de crises, de certeza que da importância da diversificação na obtenção de bens não se escapou. Até penso que é esse o âmago teórico para a possibilidade e potencialidades adjacentes à proliferação de iniciativas privadas, numa economia aberta, na formação e multiplicação de empresas e do valor da aposta em determinados cenários para a sua viabilização ou não. Muitas empresas a produzirem o mesmo de muitas maneiras diferentes e a competirem para a sua manutenção e sucesso. Tudo isto embrulhado em rigoroso controlo da qualidade do produto e de prestação…
Pedro Graça Lopes
Militante do CDS-PP














