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Quotidianos

A esquerda e a política das cidadesPor José Bastos

A cidade é de todos e a obrigação da esquerda na gestão das autarquias é diferenciar-se da direita na integração das pessoas e não as instalar de harmonia com os seus rendimentos , raça ou origem.

Nunca houve vontade política para resolver este assunto, porque se houvesse nos novos loteamentos constava uma percentagem de fogos para habitação a preços controlados.

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A esquerda e a política das cidades Por José Bastos

Por Jornal Rostos

Há mais de vinte cinco anos que defendo um urbanismo de qualidade, um ambiente sustentável e integração das pessoas em todo o território da cidade, independentemente de serem da classe alta, média ou carenciada.

Sempre discordei dos condomínios privados e que os pobres fossem atirados para a periferia das cidades. Uma situação destas levada ao extremo, vai sempre acabar muito mal com as populações a reclamarem por segurança, como já acontece.

E depois tratam isto com mais polícias, como se isso fosse possível. Se o território não for ocupado por todos a “guerra” continuará e não vale a pena falarmos em cidadania participativa.

Escrevi alguns artigos a sugerir que nos loteamentos novos fosse reservada uma percentagem de fogos para habitação social e para venda a preços controlados. Nunca ouvi nenhum eco favorável nem dos políticos, nem da restante população.

Não foi nada fácil, defender estas políticas, num momento da nossa história em que os terrenos atingiram valores especulativos que chegaram a dobrar ao ano.

Neste momento, com o caos urbanístico em volta de Lisboa, a insegurança das pessoas, a má qualidade de vida e a crise, já muitas pessoas percebem o que se está a passar, mas há vinte ou vinte cinco anos, isso era raro e os promotores imobiliários com os lucros especulativos que conseguiam influenciavam os lideres de opinião e calavam os partidos com o financiamento das campanhas eleitorais.

Sim, porque ninguém tenha dúvidas que quem sempre financiou as campanhas eleitorais para as autarquias locais, antes do financiamento por parte do estado, foram os construtores civis e os urbanizadores, para conseguirem benesses das Câmaras. Quem havia de ser; os trabalhadores, o comércio local ou profissões liberais?

Fazer cidade, com uma estratégia política, para implantar avenidas, praças, espaços verdes, arborização das ruas,lugares de estacionamentos, passeios largos e uma densidade sustentável com equipamentos bem .localizados, não foi matéria fácil nas últimas décadas.

Os especuladores imobiliários entregavam a elaboração dos projectos aos técnicos das Câmaras, para assim conseguirem as aprovações de acordo com a sua intenção lucrativa. Em muitos concelhos não funcionava o mercado de arquitectura. Era tudo feito pelos técnicos da Câmara com a ajuda de desenhadores, também funcionários da edilidade.

Esta parceria entre técnicos, promotores imobiliários e muitos autarcas, conseguiam por a população contra os políticos que os contrariavam. E não era só a população era também a quase totalidade dos políticos de todos os partidos. Estava quase toda a gente a favor do betão! Muitos gostavam até de ter os especuladores como amigos.

Os políticos de esquerda nas câmaras (comunistas ou socialistas) sempre apoiaram os condomínios privados para os ricos. Isto faz algum sentido? E que sentido faz atirar com os mais carenciados para a periferia das cidades?

A cidade é de todos e a obrigação da esquerda na gestão das autarquias é diferenciar-se da direita na integração das pessoas e não as instalar de harmonia com os seus rendimentos , raça ou origem.

Nunca houve vontade política para resolver este assunto, porque se houvesse nos novos loteamentos constava uma percentagem de fogos para habitação a preços controlados.

Neste momento é possível melhorar a integração social se as Câmaras, a banca pública e o governo adquirirem casas em segunda mão para serem arrendadas a preços compatíveis com os salários dos trabalhadores. Os trabalhadores que auferem o ordenado mínimo ou mesmo mais não podem comprar nem arrendar uma casa aos preços de mercado. Para mim isto é uma evidência.

Só com uma política das cidades que tenha uma estratégia inclusiva se pode conseguir uma melhor segurança e uma convivência sã e em .liberdade entre os citadinos.

Este assunto é muito complexo e não é fácil de conseguir, mas se não houver vontade política à esquerda não é direita que o vai resolver.

José Bastos

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