O BailePor Florbela Viegas

Por Jornal Rostos
Ao romper do dia, o baile terminava.
Como por encanto, a música cessava. Apagavam-se as luzes e todas as janelas daquele velho casarão, no Barreiro Velho, colado ao meu, fechavam-se suavemente. Ninguém saia, ninguém entrava, como de costume.
O barulho das vozes e da música, que saía pelas janelas, trazido pelo vento, acordava-me, por vezes, de madrugada, mas eu já estava acostumada.
Antes, ainda me aproximava daquela velha casa toda iluminada, intrigada por não ter visto ninguém a entrar ou a sair, mas não conseguia ver nada, lá para dentro. Embora a música tocasse e se ouvissem várias vozes e risos, as janelas eram tão altas que não me permitiam, sequer, vislumbrar as sombras das pessoas, reflectidas nas paredes ou nos belos tectos de gesso trabalhado. A porta da frente estava sempre trancada e, por mais que tocasse à campainha, ninguém me atendia.
Então, pé ante pé, voltava para casa e fazia os possíveis por adormecer novamente. No início, cheguei mesmo a questionar a velha senhora que ali morava, sobre o barulho e as noitadas, mas ela respondia-me, sempre, bruscamente:
- Foi um encontro de velhos amigos e conhecidos. Também queria ser convidada?
Aquela senhora vivia sozinha e reclusa. Ficara viúva há vários anos e não tinha filhos nem parentes vivos. Ninguém a visitava regularmente, a não ser um velho advogado, duas vezes por ano, para assinar documentos. Tinha uma empregada externa, tão velha quanto ela, que lhe fazia os serviços domésticos. Como fiel empregada que era , sempre mal-humorada, não gostava de comentar a vida e os hábitos da sua patroa. Desencorajava, sempre, qualquer tentativa de cusquice alheia.
Durante o dia, havia movimento na casa, principalmente na cozinha e no jardim. Depois, ao final da tarde, a empregada retirava-se e o silêncio caía, de novo, sobre o casarão. A velha senhora ficava só, com as suas lembranças.
Talvez fosse a sua grande solidão que a levasse a convidar os amigos e a organizar as festas, pensava eu.
Aquela casa era toda decorada com móveis e peças antigas de grande valor, resquícios de um passado opulento. Pratas, faianças e cristais estrangeiros estavam distribuídos pelos vários salões e a velha senhora supervisionava pessoalmente as limpezas, recomendando à empregada, o maior cuidado com as suas antiguidades.
No grande salão de visitas, recordo-me de ter visto um quadro enorme, que cobria uma parede inteira. Retratava uma festa com gente elegante e bem vestida, sentada, a conversar, e em pé, a fumar, e vários pares a dançar ao som de uma grande orquestra, ao fundo. Todos muito bonitos, muito bem vestidos, como antigamente.
Alguém me disse que alguns anos após ter perdido o marido e sentindo chegar a saudade, a solidão e o peso da idade, a velha senhora encomendou a tela a um pintor famoso, barreirense. Entregou-lhe vários retratos, do marido, de parentes e amigos mais próximos, já falecidos, todos eles muito queridos. Recomendou ao artista que os retratados deveriam estar felizes, alegres e sorridentes, ter os rostos de frente e o olhar convergindo para qualquer parte do salão, onde estivesse um observador, de forma a criar a ilusão de uma presença efectiva.
Um dia, quando o sol raiou, a música não parou de tocar e as luzes não se apagaram. A manhã chegou radiosa, as janelas continuaram abertas mas ninguém saiu ou entrou, como de costume.
Quando a empregada a encontrou, a velha senhora estava no salão, sentada na sua poltrona preferida. Parecia dormir serenamente, com uma taça de prata tombada aos seus pés e o vinho tinto derramado no tapete.
Aquele salão estava sempre fechado e só era aberto para as limpezas.
Conta-se que, todos os dias, após a saída da empregada, a senhora se vestia a rigor, acendia as luzes da casa e do jardim, abria todas as portadas e janelas e colocava uma gravação de som ambiente de festa, com conversas, risos e música de fundo.
Sentava-se então na poltrona em frente ao quadro, com uma taça de vinho na mão e, em pensamento, integrava o ambiente da tela, conversando e confraternizando com todos aqueles que amou e que já tinham partido antes de si.
A casa foi posta à venda e eu não resisti a visitá-la.
Estava vazia, mas o tal quadro lá estava, ocupando a mesma parede inteira.
As figuras tinham agora os rostos sérios, tristes, lágrimas, como pérolas, escorrendo pelas faces.
Os instrumentos pendiam inertes das mãos dos músicos.
Já ninguém dançava.
Já ninguém conversava.
O baile terminou.
Já não haverá mais festas naquela casa.
Florbela Viegas














