O que há de novo em Obama?Por Nuno Santa Clara Gomes

Por Jornal Rostos
O fenómeno Obama foi, a par com a crise financeira, o assunto dominante da segunda metade do ano de 2008. Alguém não desconfiado quanto a explicações metafísicas diria que os dois casos estão intimamente ligados. Ou que ambos se inserem no efeito Gaia, a célebre teoria da auto-regulação do Universo.
O que mudou com Obama? Nada e Tudo, frase de pacotilha, de quem não se quer comprometer.
Porque nada mudou? A América continua a ser o mesmo país, grande nas qualidades, grande nos defeitos. Mas não será esse o preço da grandeza? Autores hoje históricos, como Noam Chomsky, contestaram a forma de estar no Mundo a que chamaram arrogância do poder, assim tipificando a atitude americana de após a II Guerra Mundial. Esses americanos estavam em oposição ao conceito da utilização do poder americano conforme o concebiam Richard Nixon, Ronald Reagan ou (sobretudo) George W. Bush, esse forte candidato ao julgamento da História como o pior presidente que os Estados Unidos alguma vez tiveram.
Antes de mais, note-se que o apregoado isolacionismo americano nunca foi completo, msmo entre as duas guerras mundiais, quando parecia ser a política oficial dos EUA. A apetência pela intervenção externa não teve início após a II Guerra Mundial; os Estados Unidos sempre intervieram, quase desde a sua independência, no que consideravam “o seu hemisfério”, ou seja, nas Américas do Norte, do Centro e do Sul, por vezes com mão pesada. A doutrina de Monroe, America for Americans, melhor se chamaria Americas for the North Americans.
Os EUA continuarão a interferir além fronteiras, atitude a que são obrigados pela sua dimensão e pela sua dinâmica, o que parece confirmar-se pela declaração de Obama quanto á sua decisão de aumentar o volume de forças no Afeganistão, bem como pelas suas declarações em que diz estar atento ao que se passa no exterior.
Porém, o apregoado isolacionismo, se não foi real na política externa, teve efeitos na política interna. O cidadão médio do Middle West (um exemplo) tem uma ideia nebulosa do que se passa fora dos Estados Unidos; foi mentalizado durante anos no espírito da Pátria em perigo e acha natural qualquer guerra preventiva, face a um mundo que sempre lhe disseram ser hostil.
Mas Obama tem em si algo de diferente. Não foi inteiramente criado nos Estados Unidos, e viu de perto a imagem negativa que eles têm, sobretudo nas comunidades do Terceiro Mundo e nos países islâmicos.
Foi talvez daí que nasceu o seu discurso dos “Pais Fundadores”, aqueles que estão na base da Declaração de Independência, dentro da linha dos que emigraram movidos pelo espírito de liberdade política e religiosa, e não apenas por pressão económica. Esses cujo espírito está na declaração de independência, que foi passado para a Constituição e que esteve presente nos actos dos primeiros presidentes que, como Obama, não tinham nascido na América.
Coincidência ou consequência? Obama não é americano por um acaso geográfico ou biológico, mas por opção. Opção fundamentada nos valores mais profundos da sociedade americana, que ele vem frequentemente citando. E a força dessa crença foi contagiosa, levando milhões de americanos anónimos a apoiar a sua candidatura, contrariando a tendência de serem os grandes grupos financeiros e outros interesses económicos a patrocinar (o que significa escolher) os candidatos à presidência.
Esta é a primeira novidade de Obama. A segunda veio no rasto da crise financeira, e das suas consequências na economia.
A actual crise dita financeira veio obrigar a reequacionar os sistemas, já que as ondas de choque provocaram um tsunami universal. Porquê dita financeira? Não parece haver dúvidas que os sinais de alerta sobre a insustentabilidade do clima de euforia e especulação já vinham sendo dadas há mais tempo; tão longe quanto 2004, as aquisições de produtos financeiros de índole duvidosa haviam sido proibidas pelas autoridades financeiras do Líbano. Não foi milagre ou intervenção dos deuses fenícios, mas algo ditado pelo bom senso, aquele que tantas vezes é inimigo do senso comum. Só que foi o senso comum que orientou os demais governos, e foi a falha de supervisão dos governos e bancos centrais que levou ao presente descalabro. Portanto, crise dita financeira, porque no fundo foi política.
Segundo a lei geral e universal do determinismo, na qual assentam todas as ciências (com excepção da matemática) as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. E não vale a pena dizer que a crise de 1929 não tem nada a ver com a de 2008: nos dois casos, foi o sobreaquecimento e a especulação que desencadearam a crise. Resta-nos, a nós portugueses, vítimas de acusação de terceiro mundismo quando se soube do caso da Dona Branca, a consolação de que estamos agora vingados pelo caso Madoff, a Dona Branca a nível planetário.
Será que a crise desencadeará um regresso ao isolacionismo, ainda que mitigado? As primeiras reacções na Europa apontavam nesse sentido, mas o bom senso prevaleceu. A Comunidade Europeia mostrou para que serve, ainda que tenha estado aquém das suas capacidades. Mas, além Atlântico, a unidade do espaço físico e económico facilitou a resposta à crise. E os primeiros sintomas de retoma começam a desenhar-se.
Obama surge na altura certa. A crise está para ele como o terramoto para o Marquês de Pombal. E até a deterioração das instituições americanas, fruto dos anos Bush, contribuiu para aumentar a expectativa no novo líder.
Outro factor a ter em conta é o modo de organização política da América, que segue a tradição inglesa. Os deputados e senadores consideram-se directamente responsáveis por quem os elege, e não perante o partido de que fazem parte. Ou seja, a norma é o voto em consciência, sendo a disciplina de voto quase uma aberração. Precisamente o contrário da tradição latina e continental.
Face aos aspectos escandalosos da crise, era impossível aos deputados e senadores apresentar-se aos seus eleitores como defensores do ultraliberalismo e da desregulação. A aprovação da política de Obama foi pacífica. E, aquém Atlântico, como seria uma tal votação?
A actual intervenção governamental na economia americana tem dado frutos, mas também tem os seus detractores. Do mesmo modo, no combate à Grande Depressão de 1929 houve que condenasse o então presidente F. D. Roosevelt pelo New Deal, a nova política económica, com forte intervenção estatal. E haverá sempre quem teime em dizer “não me venha com os seus factos, que eu tenho os meus argumentos”.
Portanto, alguém que vem de fora, sem estar condicionado por um debate político estereotipado; naturalizado por opção, com base naquilo que acha de positivo na sociedade de adopção; que procura resolver uma crise com base numa combinação de valores éticos profundos com um pragmatismo operante; que assenta as suas posições no consenso obtido na proximidade com os cidadãos…
Porque não no Barreiro?
Nuno Santa Clara Gomes














