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Quotidianos

O preço do progressoPor Nuno Santa Clara Gomes
Barreiro

O deslizar do Barreiro para dormitório de Lisboa impunha que a prioridade fosse ir depressa para o barco e voltar depressa para casa. Assim se fez, e uma Avenida que deveria ser o espaço de lazer e sala de visitas da cidade virou quase uma via rápida, separando os barreirenses do seu rio. Depressa para o parque de estacionamento, depressa para casa! E, como o parque não chega, lá se vai ocupando um espaço vago, que deveria ser chamado Parking Paris-Dakar.

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O preço do progresso Por Nuno Santa Clara Gomes Barreiro

Por Jornal Rostos

Que o progresso tem um preço é um dos chavões mais empregues, sobretudo quando se querem impor soluções mais económicas arredando displicentemente considerações culturais, ambientais ou de qualidade de vida.
Foi assim que Lisboa se viu separada do seu amado Tejo (outro chavão!), primeiro pela linha férrea de Santa Apolónia ao Carregado e daí para diante, e, do lado oposto, do Cais do Sodré a Cascais. Ficou apenas o espaço entre as duas estações, ainda assim diminuído pelo Arsenal da Ribeira das Naus, até à sua transferência para a Margem Sul.
Para sempre (?) se perderam os passeios à beira rio, as queirosianas deambulações pelo Aterro.
Em nome do progresso, claro. E o progresso impunha lançar a via férrea onde fosse mais barato. E lisboetas e passantes ficaram sem o Tejo, cada vez mais distante, depois pelo crescimento das docas, agora pelo traçar de corredores de transportes variados. Deste progresso, qual foi o progresso? Lisboa ficou estrangulada, a zonas limítrofes não foram aproveitadas e os problemas hoje são mais que muitos.
O Tejo resistiu no fado e na Margem Sul, nomeadamente no Barreiro, onde a linha férrea era perpendicular à costa, e a CUF estava arrumada a um canto.
O Tejo e o seu afluente Coina fluíam e refluíam ao sabor das marés, e eram indissociáveis da Vila e Concelho.
Mas o progresso não pára e ei-lo insinuando-se nas nossas margens, encerrando moinhos, deixando assorear caldeiras, erguendo fiadas de prédios, cortando a ponte, separando os povos, marginalizando actividades tradicionais.
O deslizar do Barreiro para dormitório de Lisboa impunha que a prioridade fosse ir depressa para o barco e voltar depressa para casa. Assim se fez, e uma Avenida que deveria ser o espaço de lazer e sala de visitas da cidade virou quase uma via rápida, separando os barreirenses do seu rio. Depressa para o parque de estacionamento, depressa para casa! E, como o parque não chega, lá se vai ocupando um espaço vago, que deveria ser chamado Parking Paris-Dakar.
Felizmente, a recuperação da Avenida do Mar, em boa hora feita pela APL, devolveu uma parte da nossa frente ribeirinha; combinada com a espontânea presença da juventude no local, deu nova dinâmica à área.
Falta recuperar os moinhos e caldeiras, explorar as capacidades da energia eólica e das marés, que os nossos antepassados fizeram com mestria, dar condições à pesca artesanal, como se faz por todo o lado, enfim, reconciliarmo-nos com os nossos rios, de que fomos separados pelo progresso, para que essa palavra reencontre o seu verdadeiro significado.

Nuno Santa Clara Gomes

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