A ronda e a língua.Por José Assis
SEIXAL

Por Jornal Rostos
1. A desdramatização da ronda.
Se houve matéria que em nada teve a ver com dramas ou equívocos e muito menos com sombras, revelando-se, pelo contrário, útil para a definição do novo quadro politico desta legislatura, foi a ronda que José Sócrates efectuou pelos demais partidos com assento parlamentar, depois de ter sido indigitado como Primeiro Ministro e antes da formação do XVIII Governo Constitucional. Observada, hoje, já com o Governo em funções, esse primeiro passo traduz-se numa vontade de diálogo, transparente e sem compromisso. A precipitação dos que logo assinalaram que José Sócrates, quando solicitou conversar com a oposição, o fez com a ideia de imediatamente adquirir uma governação coligada, no governo ou no parlamento e os gritos dos arautos das fraquezas do PS só sublinharam, ainda mais, a atitude certeira da iniciativa. Se Sócrates não falasse com ninguém seria logo apelidado de arrogante.
Conversar não é nenhum drama e boas conversas não fazem mal a ninguém. Formado todo o governo é preciso continuar esse diálogo. Um coisa sei: se José Sócrates tivesse, de qualquer forma, extraído dessas conversas que a oposição estaria disposta, em uníssono, a rejeitar o programa do governo ou a criar os pressupostos para uma acção radical e oposta à vontade popular, nomeadamente no inicio da legislatura, desses factos e dessa intenção Sócrates daria nota pública aos seus concidadãos. Foi, portanto, mais do que uma iniciativa prospectiva, um modo de auscultação preventiva, no tempo certo que serviu para clarificar opiniões. Por outro lado, dramatizar ao ponto de dizer que tudo foi pensado para que José Sócrates se pudesse " vitimizar " para ele próprio fundamentar a posteriori uma queda do seu próprio governo parece-me manifestamente excessivo e de quem muitos filmes vê, não sendo um bom começo por parte de quem deveria estar, como Sócrates aliás está, de coração aberto para esta legislatura.
Como, desde logo afirmou aliás, o Primeiro Ministro percebeu e interpretou o conteúdo da mensagem que foi dada nas urnas de voto a 27 de Setembro. E agiu de acordo com esse novo sentir do eleitorado. Os fantasmas logo lançados, curiosamente por alguns dos espíritos que cavalgaram a asfixia democrática e que dela caíram,são, uma repetição do sombreado de Agosto. O processo de formação do governo foi bem iniciado,e a sua formação, plural nas opiniões e diversificada nas origens é já uma consequência positiva desse bom inicio.
2.Amarrados eternamente pela língua.
Os Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil, o entusiasmo dos brasileiros em redor dessa decisão e de, não sendo atrevimento afirmar, todo o mundo lusófono; a realização do Mundial de Futebol em 2014 também no Brasil e a candidatura conjunta de Portugal e Espanha à organização do Mundial de Futebol de 2018 ou 2022, que se espera bem sucedida, amarram o desporto definitivamente à cultura, num calendário de eventos para a próxima década, a que a estes se somarão outros, com os quais é inevitável que, em concomitância, se desenvolva uma agenda cultural. A língua portuguesa, veículo principal dessa agenda e factor de universalização dos povos, está em destaque e deve ser destacada com orgulho, bem como a nossa historia tem uma boa oportunidade de ser assumida sem qualquer complexo ou receio de sentimentos antigos e ultrapassados. O nosso posicionamento no mundo está inscrito na historia e continuamos a ter um posicionamento privilegiado, especialmente na relação com os países lusófonos e , com estes , perante o mundo. Uma década de oportunidade para assumir a nossa importância histórica e esclarecer que continuamos a assumir a lusofonia sem qualquer complexo, num espaço de laços fraternos que unem os povos lusófonos, tendo como meio o espírito e o carácter inclusivo que estes jogos desportivos transportam, mais acentuado nos Jogos Olímpicos, associados à afirmação leal e pacifica das Nações pelo desporto e, por essa via, à conquista de patamares de elevação do ser humano.Humanizar é preciso e o desporto é um bom caminho.
A cultura, como um meio primeiro e essencial na globalização dos povos, em contraste com o mercado do tempo contemporâneo que se apresenta como factor de globalização desregulada e parcialmente perversa, estribada no capitalismo financeiro idolatrado, que quer regressar em força, é um bom mote para uma reflexão a ter lugar em iniciativas conjuntas e globais. Com este calendário de eventos multifacetados, a oportunidade para a língua e para a cultura portuguesas, vai muito além da própria rendibilização dos equipamentos desportivos e das infraestruturas executadas para o Euro2004 ou mesmo dos Consulados ou Representações que possam existir e funcionar, mesmo que bem. Não terá sido ao acaso que os Chefes de Estado se empenharam pessoalmente nas candidaturas aos Jogos Olímpicos das cidades dos seus países.
A diplomacia económica e a diplomacia cultural e desportiva vão andar de mãos dadas e a dimensão cultural, emergente de todas as acções ligadas à preparação dos eventos, competições de apuramento, e todo o ambiente à volta da organização, tendo uma década de horizonte temporal pela frente aí não se esgotará, deixando uma marca para o que se seguir à sua realização, com impactos intermédios, a contribuir decisivamente para uma maior aproximação entre os povos, no caso dos países lusófonos, unidos pela nossa língua e com uma língua muito próxima, o Castelhano, a acompanhar o rumo dessa tonalidade comum em todo o continente Americano/Sul e na própria Península Ibérica.
Essa alavanca cultural, que se medirá por um valor enorme, aliado aos valores que, esperamos, o desporto proporciona, é um estimulo à perspicácia governativa é à coragem de apostar na cultura como uma área prioritária.
José Assis.














