ROMA NÃO PAGA A TRAIDORESPor Nuno Santa Clara Gomes
BARREIRO

Por Jornal Rostos
… ou afinal, Roma paga a traidores?
A erudita referência do Senhor Arquitecto Carlos Pires a um episódio da História de Portugal, bem como o teor e o estilo empregue no seu artigo, denotam um regresso àquele mínimo de elevação que deve pautar o debate político.
Com isso me congratulo, já que, afinal, se trata de uma questão entre pessoas que se inserem dentro do mesmo espectro político.
Contudo, o bichinho da História, que há muito me contaminou, leva-me a revisitar o episódio evocado. Na luta dos Lusitanos contra o conquistador e ocupante romano, sobressaiu Viriato, imortalizando-se e criando uma das bases daquele sentimento nacional que se foi afirmando ao longo dos tempos; e, se estou escrevendo em português, a isso o devo.
O comandante romano Servílio Cipião entendeu por bem que a forma mais cómoda (e barata, pode-se acrescentar) de resolver o problema dos Lusitanos seria o assassinato de Viriato. E assim o fez: subornou os três enviados de Viriato, Audas, Ditalco e Minuros, que tinham ido negociar tréguas, para que executassem a sórdida tarefa.
Eles assim fizeram, matando Viriato enquanto dormia. Mas, quando regressaram para reclamar a paga prometida, receberam a altiva resposta: Roma não paga a traidores!
Soberba frase, e bela solução: ficou ainda mais barata do que o planeado.
Fica-nos portanto a dúvida: quem traiu quem?
Voltando ao artigo, acho que, da minha parte, tudo quanto haveria a dizer está dito. O mais que posso acrescentar é parafrasear Fidel Castro, não o ditador em que se tornou, mas o libertador de Cuba, aquando do seu julgamento pelo tribunal do regime de Fulgêncio Baptista: a História me absolverá. Não por falta de provas, ou por prescrição, como agora está na moda, mas por improcedência.
Apenas uma nota final: “todos os fins de mês”, há quarenta e três anos a esta parte, tenho-me esforçado, e penso que tenho conseguido, em justificar o que o erário público me paga. Mesmo na situação de reforma, tenho-me empenhado em voluntariado não remunerado, porque assim julgo ser o meu dever de cidadão. E, nesta discussão dos pelouros, admiti ficar a meio tempo ou mesmo sem tempo nenhum.
Estou em Estado de Graça. Não por via de absolvição, nem por via de amnistia: é por nunca ter pecado em tráfico de influências, em corrupção, em compadrio, ou noutros pecadilhos, ainda que, ao que parece, estes pecadilhos são tão ínfimos que nem dão para retirar a confiança política.
Quero continuar em Estado de Graça por mais quatro anos, com pelouro ou sem ele.
Depois, é simples: com 68 anos, irei gozar a reforma a que tenho direito, e que venho adiando. Nada de sinecuras ou de conezias: apenas a paz comigo próprio.
Nuno Santa Clara Gomes














