Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Orçamentos Municipais, Participação, Resultados.Por José Caria
MONTIJO

O orçamento representa o consenso possível resultante de desejos virtualmente ilimitados dos múltiplos actores sociais. Os orçamentos são elos entre recursos financeiros e comportamento humano, a fim de alcançar objectivos políticos.
A temática da transparência não se resume a dar visibilidade à gestão das políticas públicas locais.

4 min de leitura
Orçamentos Municipais, Participação, Resultados. Por José Caria MONTIJO

Por Jornal Rostos

Um Orçamento Municipal orientado para resultados consiste numa ferramenta poderosa para despertar relações de sinergia, mediante arranjos institucionais que aproximem o órgão executivo do município (e também o órgão deliberativo A.M.) e sociedade autárquica local. Instituições que operam em cada Município são factores decisivos para o desempenho das políticas públicas municipais e também para construção reforçada da legitimidade democrática, pois ao transformar programas de governo local em bens e serviços que atendam as necessidades, interesses e aspirações locais sociais, tendem a fortalecer a democracia em cada município.
O orçamento municipal orientado para resultados implica uma concepção mais abrangente do orçamento público municipal tornando-o um valioso instrumento para promover as sinergias. As transformações resultantes do orçamento municipal participativo e orientado para resultados extrapolam a esfera da efectividade das políticas públicas municipais e das mudanças organizacionais, contribuindo para fomentar o capital social, ampliar os níveis de confiança, fortalecer as instituições democráticas locais e legitimar ainda mais o Poder Local democrático. A ênfase no resultado constrói confiança e melhora a credibilidade perante os contribuintes, perante os cidadãos, perante os munícipes, como mecanismo de governança democrática local.

Na preparação, elaboração, discussão e aprovação dos orçamentos municipais novas tendências se destacam que devem ser reforçadas: a) Ruptura (ou pré-ruptura) do paradigma tecnocrático tradicional dos departamentos, divisões e Secções baseado no isolamento e no formalismo; b) Implantação de cultura de resultados mediante construção de novos valores, normas, práticas; c) Introdução de sistemas de incentivo para premiar o desempenho eficiente dos trabalhadores e actores públicos; d) Participação activa, consciente e crítica da sociedade civil municipal na gestão pública, estabelecendo relação cooperativa, sinérgica e transparente; e) adopção de padrões de gestão modernos, que maximizem os benefícios nacionais, regionais e locais primordiais, especialmente crescimento económico com inclusão social.
A sinergia cidadão-governo local representa a aproximação dos universos da policy e da politics. Políticas Públicas locais não são apenas recursos para solucionar problemas ou aproveitar oportunidades, mas mecanismos de exercício da democracia – do Poder Local democrático. Por um lado, privilegia-se o desenvolvimento socioeconómico e a efectividade da gestão do governo Local; por outro, aspira-se a reforçar a aceitação popular do sistema político local e ampliar a confiança nas instituições democráticas concelhias e de Freguesias.

Apesar de o orçamento público local municipal ser percebido ainda nalguns casos como instrumento técnico, as propostas dum orçamento participativo para e por resultados assumem cada vez maior dimensão política. A conexão entre orçamento e política não se resume ao acto de aprovação do documento pelas assembleias. Muito mais do que isso, o orçamento é a arena na qual os actores sociais exercem o seu poder de influência, autoridade, legitimidade, escolha e decisão. O orçamento é por excelência um mecanismo de agregação de preferências que, procurando solucionar problemas de acção colectiva, deve almejar traduzir os desejos e aspirações das respectivas sociedades municipais.

O orçamento representa o consenso possível resultante de desejos virtualmente ilimitados dos múltiplos actores sociais. Os orçamentos são elos entre recursos financeiros e comportamento humano, a fim de alcançar objectivos políticos.
A temática da transparência não se resume a dar visibilidade à gestão das políticas públicas locais. Além dessa dimensão de acessibilidade, a abertura das contas públicas locais visa, sobretudo, oferecer ferramentas aos cidadãos para múltiplos fins:
a) Compreender a intricada linguagem orçamentária, fornecendo subsídios para que a população exerça as suas competências cívicas e, portanto, aprimore as suas práticas de cidadania;
b) Fiscalizar e monitorar a execução das actividades do governo local actuando como factor inibidor de corrupção e outros vícios, como clientelismo e patrimonialismo;
c) Avaliar o desempenho dos gestores, incentivando a eficiência operacional da administração pública local e a efectividade das políticas públicas municipais;
d) Oferecer oportunidades para participar no processo de definição das políticas públicas municipais a serem implementadas.

Além das posturas isolacionistas e refractárias ao diálogo (nalguns poucos casos), outras tradicionais competências dos departamentos, divisões e secções de elaboração da orçamentação precisam ser repensadas, de forma mais ampla, não apenas como uma forma de alocar recursos financeiros para programas de governo local e instituições e Associações mas também como um instrumento decisivo para promover desenvolvimento económico e social, estabilizar condições financeiras e reduzir a exposição a vários riscos e choques, aperfeiçoar a governança pública local e a capacidade de gestão geral num município construindo politicamente legitimidade democrática local e tornando os governos locais e seus orçamentos mais responsivos ao desejo democrático, aos direitos, interesses e aspirações das populações de cada município.

José Caria
(*) Autarca

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção