Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Hoje senti uma saudade enorme de um sonho que desejava ter cumpridoPor Margarida Pestana
BARREIRO

Queria poder ser tudo isso por um dia. As dores do treino, da insistência até às lágrimas, as quedas, e o resultado final, com ou sem medalhas, não importa, mas a satisfação de um trabalho bem feito e de ter dado tudo de mim àquela paixão.

3 min de leitura
Hoje senti uma saudade enorme de um sonho que desejava ter cumprido Por Margarida Pestana BARREIRO

Por Jornal Rostos

Eu tinha um sonho. Um sonho maior que ser princesa, maior que encantar com um sorriso, maior que viver apaixonada e ser amada para a vida, maior que ser feliz para sempre. Tinha um sonho maior que o que hoje sigo. Tinha um sonho que não cumpri.

Podia ter sido uma boa ginasta, sei que tinha tudo o que era preciso. Paixão, concentração, elegância, percepção das coisas, inteligência, musicalidade e sobretudo jeito. Tinha tudo, tinha a oportunidade. Mas não tinha a vontade. Era inconsciente, miudinha e desisti de tudo. Tinha sete anos.

Do tumbling à ginástica acrobática. Só fiz o básico, nunca fiz nada do outro mundo. Não tive tempo, não dei tempo à minha oportunidade. Mas fazia-o com gosto, até que achei que tinha mais do que fazer, e disse adeus a esta vida.

Hoje tenho dezanove anos. Hoje olhei para elas, as minhas meninas como gosto de chamar. Tão pequenas, e outras já tão grandes. Olhei para elas e vi o mesmo gosto, mas também vi o empenho. Mas há alturas que não o vejo e isso deixa-me realmente desolada. Porque elas têm uma oportunidade e às vezes querem perdê-la, com os medos, com as inseguranças e com as dúvidas. Por um dia, por um dia queria estar no lugar delas, queria ser eu a treinar e a ouvir os conselhos dos treinadores. Queria sorrir para o júri, mostrar confiança na recepção dos dinâmicos, fazer a coreografia sempre como se só fosse eu e a minha parceira, como um à vontade de quem tem como casa o praticável. Queria poder ser tudo isso por um dia. As dores do treino, da insistência até às lágrimas, as quedas, e o resultado final, com ou sem medalhas, não importa, mas a satisfação de um trabalho bem feito e de ter dado tudo de mim àquela paixão.

Hoje senti uma saudade enorme de um sonho que desejava ter cumprido. Voltei a abrir os álbuns, a ver fotografias com mais de dez anos, e deu uma saudade maior de congelar os tempos. Sempre digo que não mudava nada do que fiz em toda a minha vida se pudesse voltar atrás. Mas mudava. Se pudesse voltar atrás tinha continuado, seguido o sonho, podia até não ter dado certo e não ter conseguido, mas sabia-lo agora e nunca me sentiria arrependida por nunca ter tentado. Nunca tentei e é disso que me arrependo.

Hoje vivo outro sonho. Mais pequeno, menos brilhante, menos forte, mas vivo outro sonho.

“Quero que sejam aquilo que nunca fui!”, tudo se resume um pouco a isto. Quero que sejam mais, melhor, perfeitas, elegantes, concentradas, confiantes acima de tudo e quero que agarrem a oportunidade que têm. É por isto que ensino, é por isto que estou neste curso. Porque não fui capaz de lutar por algo que sempre amei, porque agora é a vez de outras pessoas. E quero ser eu, quero ter o poder, quero fazer a diferença e ajudá-las a lutarem pelos sonhos delas que um dia também foi o meu.

Margarida Pestana

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção