O nosso melhor amigoPor Nuno Santa Clara Gomes
BARREIRO

Por Jornal Rostos
Li algures uma referência a uma lenda grega segundo a qual os deuses, tendo criado o Homem, dele se compadeceram, ao vê-lo tão vulnerável, tão desamparado, tão desajeitado face aos desafios que o mundo primitivo lhe impunha.
Então, os deuses condoídos decidiram compensar o Homem na sua infelicidade, e deram-lhe o Cão. Companheiro ideal, incansável, bom caçador, excelente guarda, fiel e carinhoso.
Outra lenda grega, esta mais conhecida, diz que Ulisses, de regresso a casa ao fim de vinte anos de ausência, foi reconhecido apenas pelo seu velho cão que, com a emoção, morreu.
São frequentes as estátuas jacentes de túmulos medievais em que, aos pés dos donos, estão representados cães, como exemplo máximo da fidelidade, mesmo para além da morte.
Hoje, já não vivemos da caça; já temos alarmes electrónicos, bem como registos e meios informáticos pelos quais se poderia pretender substituir o fiel cão de Ulisses.
Mas a nossa ligação milenar com o Cão mantém-se. Talvez menos por necessidade, mas agora mais companheiro, mais refúgio da afectividade, mais complemento de educação. Mas mesmo assim insubstituível auxiliar em busca e salvamento, no combate ao tráfico de droga ou de explosivos, ou como guia de cegos, e tantas coisas mais.
Mas será que retribuímos ao cão o tanto que lhe devemos?
O lado negro da desta relação prende-se com o abandono a que são votados muitos cães, por razões (?) variadas. Algumas poderosas, como a doença ou morte dos donos. Outras mesquinhas, e infelizmente mais frequentes, como desleixo, o desinteresse, ou o simples fartar-se de um cão que cresceu demais, ou que não se sabe educar.
O concelho do Barreiro está cheio de cães abandonados, ou deixados à sua sorte. E, na falta de enquadramento familiar, a natureza impõe as suas normas. O cão é um animal gregário, de grupo, e é por aí que se consegue a sua domesticação. Se falhar a integração no grupo familiar, e o cão se sentir abandonado, segue o instinto ancestral e a lei da sobrevivência, junta-se com outros e organizam-se em matilhas, com as mesmas regras ainda hoje seguidas pelos seus primos lobos. Daí a desenvolver a incerteza, o medo, a lei do mais forte, a agressividade como modo de sobreviver, e o recurso a ataques para defender os seus territórios (aliás, da mesma forma como defendem a casa do dono).
Não é fenómeno novo: desde sempre os viajantes descreveram Lisboa como uma cidade de cães vadios. Mas será uma fatalidade?
Creio que não, mas os riscos da proliferação de animais errantes, como eufemísticamente se convencionou chamar os cães vadios, vão além do ambiente degradado, do mau aspecto, ou até da saúde pública: trata-se de um caso de segurança colectiva, uma vez que há já casos de ataques a transeuntes.
Não vamos decerto esperar que haja uma criança morta ou um adulto deformado para lançar uma campanha de erradicação de cães, que segundo as nossas tradições degeneraria decerto num clima de histeria colectiva, que levaria a fazer pagar o justo pelo pecador. É preciso não esquecer que os cães vadios defendem-se muito melhor do que os confiantes canídeos que apenas foram visitar um amigo…
Urge, portanto, retirar da via pública os animais potencialmente perigosos. Depois, fazer a triagem dos doentes, dos sociáveis, dos que, apesar de tudo, têm dono.
Ora, capturar estes animais não é tarefa fácil; mas, depois de executada, o que fazer com eles? O Centro de Recolha de Animais Errantes (CRAE) da Câmara (junto aos TCB) tem neste momento cerca de centena e meia de cães que, na sua maioria, jamais serão adoptados, pelo menos seguindo a prática actual. Estão portanto condenados a prisão perpétua, e custando ao erário público dezenas de milhar de euros por ano.
O CRAE não dispõe das instalações adequadas para as suas funções. Trata-se de um barracão, bastante melhorado nos últimos anos, mas mesmo assim abaixo do desejável; não dispõe de sala de tratamentos, o piso não tem escoamento, não tem áreas de exercício, e sobretudo não tem o pessoal em quantidade para acorrer a todas as solicitações de um serviço que não se esgota em tratar dos cães.
E é de toda a justiça prestar homenagem aos funcionários do CRAE, pelas condições surrealistas em que têm de fazer o seu trabalho.
A melhor forma de melhorar a curto prazo as condições do seu funcionamento é pelo recurso ao voluntariado, e algumas ofertas nesse sentido foram já recebidas. Acima de tudo, é importante aumentar o número de adopções, o que passa por seleccionar, preparar e apresentar publicamente os animais aos potenciais novos donos.
E só quem passa pelas instalações do CRAE e se vê assediado por dezenas de cães cujo olhar só diz “leve-me, leve-me, preciso de uma família, olhe que não se arrepende” pode compreender quão importante é dar ao nosso melhor amigo o lugar que merece.
Nuno Santa Clara














