Aldeia Galega a primeira localidade a içar a bandeira republicanaPor José Bastos
MONTIJO

Por Jornal Rostos
No concelho de Aldeia Galega, existia um grande movimento republicano, antes da implantação da República, liderado por pequenos proprietários rurais e comerciantes.
O primeiro centro eleitoral republicano foi fundado em 1881, por um grupo de republicanos, liderados por um importante empresário da Vila ,António Máximo Ventura. Este centro encerrou três anos depois da sua inauguração devido às dificuldades criadas pela conjuntura política nacional.
Em 1906, vinte e dois anos depois do primeiro centro encerrar, nasceu um outro centro que teve uma grande projecção até à implantação da República. Este centro tinha o nome de Celestino de Almeida, um médico residente em Alcochete, prestigiado e influente republicano da região que fazia parte do comité nacional do partido.
Durante mais de vinte anos Domingos Tavares e José Maria dos Santos, ambos do partido regenerador, o primeiro como presidente da Câmara e o segundo como deputado da Nação, dominaram politicamente o concelho de Aldeia Galega.
Com o falecimento de Domingos Tavares e o fraco desempenho de Francisco da Silva, que o substituiu na presidência, a quase totalidade da população aderiu ao movimento republicano.
Em 1908, nas eleições municipais, o Partido Republicano obteve uma extraordinária vitória ,com 97% dos votos.
Também em Canha, freguesia de Aldeia Galega, existia um pujante centro republicano que se dedicava à defesa dos ideais republicanos, mas também à promoção da educação e da cultura. O centro republicano de Canha tinha o nome de Afonso Costa um dos maiores vultos políticos da República.
O Partido Republicano tinha em Canha em 1908, 140 aderentes o que é um número notável se o compararmos com os habitantes da Vila e também com os aderentes que os partidos políticos lá têm hoje.
A luta republicana em Canha foi muito dura e Artur Jesus de Oliveira, grande activista do movimento republicano em Canha, correspondente do jornal lisboeta O Mundo, foi demitido do cargo de secretário da Junta e agredido com quatro facadas a mando de um latifundiário local.
Nos anos de 1909 e 1910 o movimento foi crescendo em Aldeia Galega, com muitos aderentes ao centro, manifestações de rua com vivas à república e comícios, até à queda da monarquia no dia 5 de Outubro de 1910.
Na sessão de 10 de Agosto de 1909, da Câmara dos deputados, o deputado republicano António José de Almeida disse que Aldeia Galega era talvez a terra mais massiçamente republicana de Portugal.
A seguir à implantação da República o Jornal O Século trazia a seguinte notícia sobre o que se passou em Aldeia Galega;
IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM ALDEIA GALEGA SEGUNDO O JORNAL O SÉCULO.
“ Em Aldegallega
É esta a primeira localidade a içar a bandeira republicana.
Reina aqui grande e indescríptível entusiasmo pela implantação da República Portuguesa.
O valente povo desta terra, que entre os seus actos cívicos mostrou sempre a sua ardente crença republicana, sendo até no círculo 17, a que Aldegallega pertence, que pela primeira vez o partido republicano conseguiu furar a maioria nas penúltimas eleições para deputados, e que nas eleições de Agosto se collocou ao lado de Lisboa, vencendo a maioria, este heroico povo, mostrou no momento supremo, mais uma vez, quanto era firme a sua crença.
Foi aqui, em Aldegallega, a primeira terra em que foi proclamada a República, pelo que na madrugada de 4 já tremulava a bandeira republicana nos paços do concelho e no regresso dos valentes homens que d´aqui tinham ido a Valle de Zebro, mal armados, mas dispostos a tudo, foi hasteada a bandeira na administração do concelho e em todos os edifícios públicos e particulares, associação, etc.
Immediatamente também se procedeu à nomeação de administrador, a qual recaiu por aclamação, no vice-presidente da commissão municipal, o cidadão António Luiz Ramos.
Todo o dia 4 foi passado em terrível anciedade sobre os acontecimentos de Lisboa, mas havendo sempre o mesmo entusiasmo e a melhor boa ordem, tendo n´esse dia ido d´aqui mais de 300 pessoas a Alcochete, onde hastearam a bandeira republicana nos edifícios públicos.
Na noite de 4, o povo assaltou a repartição de fazenda, queimando grande parte dos papeis, mas o administrador, auxiliado pelos membros da commisão municipal, estabeleceu em breve a ordem.
Finalmente, no dia 5, ao ter-se aqui conhecimento que a República era um facto em Portugal, o enthusiasmo foi delirante. A Sociedade Philarmonica 1º Dezembro e a Tuna do Grupo Musical, seguidos de uma enorme massa de povo, percorreram as ruas á tarde e á noite, tocando a Portugueza.
No dia 6, foram innumeraveis as pessoas de d´aqui foram para Lisboa nos vapores que tinham restabelecido as suas carreiras.
N´essa tarde foram metidos na cadeia d´esta vila seis frades fugidos do convento de Brancanes, de Setubal, os quais foram enviados hontem sob escolta para Lisboa.
Ontem á tarde entraram mais dois frades, esperando-se mais, pois a perseguição que se lhe está fazendo é constante,, não tendo, nunca, porém o povo exercido violências sobre elles.
Hontem, fez-se aqui uma manifestação que tocou as raias do delírio a dois marinheiros que vieram de Lisboa. A philarmonica, seguida de muito povo, foi buscá-los a suas casas, passeando-os em triumpho pelas ruas e indo finalmente ao Centro Celestino d´ Almeida, onde lhes foi oferecido um copo d´agua, usando varios oradores da palavra.
Quasi todas as janellas estavam ornamentadas e vistosamente iluminadas.
Depois do copo d´agua os marinheiros foram levados a suas casas, retirando tudo na melhor ordem.”
José Bastos














