MercadosPor Nuno Santa Clara
BARREIRO
E isto não pode ser obtido por acções isoladas: é necessário conjugar as iniciativas camarárias com a dinâmica própria dos vendedores e com a apetência dos clientes.

Por Jornal Rostos
O Barreiro dispõe actualmente de sete mercados, e até já teve mais; como se vê, não são poucos, para um concelho como o nosso.
Mercado, por definição, é um local onde agentes económicos procedem à troca de bens e serviços, dentro de determinadas regras.
Porquê definir o que toda a gente sabe? Precisamente para que não se perca essa definição, já que, regra geral, os conceitos, quando muito usados, tendem a fazer esquecer o que lhes está na origem.
Mercado, lugar de troca, hoje facilitada pela invenção do dinheiro. Tudo parece quantificável, mensurável, contabilizável. Mas será mesmo assim?
A evolução dos mercados e feiras confunde-se com a história das nossas comunidades. Nos forais das nossas terras, nas concessões régias de feiras, foram-se definindo as normas do funcionamento da economia. Da troca passou-se à monetarização das transacções, e hoje há mais fluxos de meios de pagamento do que de bens concretos e materiais – e a actual crise é a consequência dessa anomalia (diria eu), que muitos defendem como expoente máximo do estádio supremo da nossa evolução… Opiniões, decerto sabiamente fundamentadas.
Mas o Mercado permanece como referência cultural. Até quando se deu início à integração europeia, começou-se por lhe chamar Mercado Comum – como que procurando reduzir ou diluir a um mero acordo de trocas a ideia mestra do reforço a identidade europeia, intolerável para os irredutíveis defensores do Estado-Nação, na forma consagrada por quatro séculos de História, marcada por conflitos armados cada vez mais violentos.
Portanto, Mercados do Barreiro, locais onde se faz a troca de bens com determinadas regras. Que bens e que regras?
A evolução das formas de oferta de produtos, bem como a concentração das empresas, levou ao aparecimento das chamadas grandes superfícies, fenómeno que em Portugal, vá-se lá saber porquê, parece ter especial incidência. As grandes superfícies são acusadas, e com alguma razão, de matar o pequeno comércio, e os mercados estão entre as vítimas.
Mas, aqui como lá fora, há como que uma resiliência. As pessoas não gostam de ser números, e ser o cliente n.º 25 não é o mesmo que ser o Sr. José – mais do que cliente, é um amigo de longa data. E as pessoas voltam ao mercado, ou à loja, ou ao café, onde se lhes garante a identidade. E os bens assim comprados não são apenas coisas, kilos, dúzias, ou metros: são a possibilidade de escolha, a troca de ideias, mesmo o regatear. É a dimensão humana que volta a estar presente num relacionamento velho como o Mundo.
O que deve ser feito nos nossos mercados é precisamente potenciar esse relacionamento, incrementar esse convívio, retomar a fidelização da clientela. E para isso não basta garantir as condições materiais, ou seja, construir as infra-estruturas e instalar os meios de apoio à venda dos produtos. É preciso que os mercados sejam espaços vivos e animados, na continuação do que têm sido ao longo dos tempos.
E isto não pode ser obtido por acções isoladas: é necessário conjugar as iniciativas camarárias com a dinâmica própria dos vendedores e com a apetência dos clientes. Todos eles têm motivações diferentes, desde dedicação ao serviço público do funcionário aos impulsos dos compradores, passando pelo objectivo do lucro dos vendedores.
Os romanos criaram o forum – um local no centro das cidades que era o pólo das actividades políticas, religiosas, económicas e sociais da comunidade. As económicas correspondiam aos nossos mercados, mas as coisas não ficavam por aí; era toda a vida da cidade que por ali passava. Local de encontro obrigatório, portanto.
Não é por acaso que as actuais grandes superfícies vieram ressuscitar a designação de fórum: para captar a clientela, nada melhor que uma oferta variada, em que o social e o cultural estejam presentes, diluindo num ambiente de passeio e local de encontro o consumismo que é o verdadeiro motor do espaço.
Pois bem: é preciso que o centro do Barreiro se torne um fórum alargado, como aliás já foi.
O eixo Fórum (sentido restrito) – Mercado e seus arredores devem desempenhar esse papel, e, como se disse, isso passa por uma conjugação de esforços, só possível a partir de uma consciência colectiva.
Esforço significa normalmente custos. Como se financia um mercado? Na origem, por si próprio; a actividade comercial e os impostos sobre ela cobrados garantiam bons proventos a quem a controlava. Mas não é isso que se vem passando ultimamente. Tem-se entendido o mercado como um serviço público, a par da sua componente comercial. E daí que as autarquias tenham vindo a investir nos mercados, considerados infra-estruturas e melhoramentos públicos, a bem da saúde colectiva e da tal convivência que desde há muito entrou na nossa maneira de ser.
Os novos mercados do Barreiro são disso bom exemplo, sobretudo o 1.º de Maio, com possibilidades de ser um dos ícones do concelho.
Brevemente, haverá uma discussão pública sobre as taxas a cobrar pelo município. E taxas, por força de lei, são contrapartidas por um serviço prestado, não podendo a autarquia tirar algum rendimento da sua cobrança.
Mas a inversa é possível: pode a Câmara considerar que um serviço tem impacto social que justifique cobrar abaixo do preço de custo, e assim subsidiar uma actividade.
Como possível é reduzir o mercado a uma mera actividade comercial, e então as taxas devem cobrir exactamente as despesas.
Daí a necessidade de voltar à definição de mercado: um local onde agentes económicos procedem à troca de bens e serviços, dentro de determinadas regras. Cumpre-nos estabelecer as regras, por forma a atingir os nossos desideratos.
Nuno Santa Clara














