FALE COMIGO!Por Nuno Santa Clara Gomes
BARREIRO
Porque essas memórias se apagam, e em definitivo.
Porque esses idosos têm a sua dignidade, decorrente da condição humana.

Por Jornal Rostos
Há alguns anos a esta parte, andava eu passeando – talvez melhor, vagabundando – por um pinhal lá para os lados da Aroeira, na companhia do meu cão. Incondicional da passeata, o bicho tinha ainda a vantagem de não me interromper, nem me distrair da contemplação da natureza.
Foi então que encontrei um velhote (deixem-me chamar-lhe assim) com ar de perdido, e estava mesmo à procura do lar onde estava internado. Não era longe, e levei-o até lá. Pelo caminho, não deixou de falar, numa conversa difusa de que não me fixei. Apenas retive uma expressão sua, quando, estando um avião a passar por cima de nós, eu, num reflexo natural de ilhéu, olhei para cima, e o meu companheiro de ocasião esclareceu: é um aeroplano.
Não consegui lembrar-me da última vez que ouvira a palavra aeroplano, com o seu sabor erudito, científico, definidor. Apenas a surpresa daquele arcaísmo, e a súbita consciência de que estava na presença de alguém que mantinha uma memória que a vida moderna vai apagando. Pensando bem, avião é diminutivo, é redutor, tem sabor a alcunha, quando comparado com aeroplano. Bom, avião é mais fácil de pronunciar, não se fala mais disso.
Pois o nosso purista da língua, ao despedir-se e agradecer a orientação, teve outra expressão marcante, esta dita com veemência: quando me encontrar, fale comigo!
Simples reacção à solidão, àquela solidão que nem umas dezenas de companheiros de lar consegue apagar? Não me pareceu, nem tenho dotes de psicólogo amador para tais interpretações. O que me pareceu foi que aquele homem tinha algo a dizer, e ninguém o ouvia.
O papel dos velhos tem vindo a diminuir ao longo da História. Fazendo algum jogo de palavras, uma vez que o marco delimitador entre a Pré-História e a História é a invenção da escrita, foi esta mesma que deu a primeira machadada nos velhos. Até aí, eles eram a memória viva, o repositório do conhecimento. Sabiam tudo sobre a meteorologia, as estações do ano, a religião e os seus ritos, a criação de gado e a agricultura, enfim, eram indispensáveis.
A escrita desvalorizou-os. Os registos escritos fixaram os acontecimentos, ordenaram a sequência dos eventos, fizeram prever as estações e até os eclipses, fixaram e solenizaram os actos públicos e privados. Mesmo a criação mais abstracta passou a não dispensar o modo de expressão gráfico, escrito ou desenhado. A memória passou de fugaz a permanente, e os profissionais da memória, ou seja, os velhos, passaram a dispensáveis.
Não desde logo, não de todo: durante séculos, até que a escrita passasse a ser uma técnica de massas, os bancos de dados vivos continuaram a ser necessários, embora diminuindo de cotação. Ou, para usar uma expressão matemática, a sua cotação passou a ser inversamente proporcional ao grau de alfabetização das sociedades.
O salto tecnológico da chamada sociedade da informação veio acelerar este processo de desvalorização. A quantidade de informação que é possível guardar e consultar em curtíssimo espaço de tempo ultrapassa largamente a capacidade humana – isto para as novas gerações, capazes de operar os sistemas de gestão de dados.
Paralelamente, a falência dos valores tradicionais e a afirmação de um materialismo despido de pressupostos morais veio relegar ainda mais aqueles que, na lógica de um sistema despudorado, não têm utilidade. Refiro aqui o materialismo puro e duro, insensível a tudo quanto não seja eficiente, eficaz, rentável, de imediato quantificável, e não ao materialismo marxista, que contem uma base ética, que por vezes as práticas querem esquecer.
É pela lógica desse sistema que os velhos, considerados improdutivos, vêem as suas pensões diminuídas, os seus espaços reduzidos e as suas capacidades ignoradas; pouco falta para que sejam considerados parasitas.
E isto feito por quem, fatalmente, também chegará a velho… na melhor das hipóteses.
Mas a simples observação do quotidiano desmonta esta visão redutora. A cada passo encontramos as memórias vivas, as experiências férteis, os saberes ocultos, que são indispensáveis a quem queira saber de onde vem (sem o que dificilmente saberá para onde vai). Qualquer de nós está condenado a procurar junto dos idosos aquelas informações que não estão nas bibliotecas ou bancos de dados, e que nos são fornecidas com o detalhe, a vivência, a dimensão humana que as tornam preciosas.
O Barreiro tem uma população envelhecida. É certo que isso revela uma crise de crescimento, mas é com isso que temos de viver, e crescer. Mas, o que se tem feito para recolher esse capital único da memória vivida? Muito ou pouco, não é o suficiente.
Porque essas memórias se apagam, e em definitivo.
Porque esses idosos têm a sua dignidade, decorrente da condição humana.
Porque essas pessoas têm vontade de partilhar as suas memórias, como aquele que me disse fale comigo.
Portanto… falem com eles!
Nuno Santa Clara














