A guerra da vírgulaPor Nuno Santa Clara
BARREIRO
Pois a paisagem tem vindo a conquistar o direito de cidadania, e a evolução do Poder Autárquico tem sido um dos motores dessa emancipação. E uma das conquistas da cidadania plena é o direito à contestação, e mesmo à indignação.

Por Jornal Rostos
A notícia do dia foi o hastear de bandeiras espanholas em Valença. Aquilo que os espanhóis tanto lutaram para conseguir, com elevado preço de sangue, deles e nosso, sem lograr os seus intentos, foi obtido pela abertura do serviço de saúde de Tuy aos nossos concidadãos do Minho.
Prefiro o lado cómico ao lado trágico. E isto porque tenho, felizmente, algum sentido da História, e tenho a noção clara de que a garantia das nossas fronteiras, as mais antigas da Europa, foi sempre obra dos povos da raia, antes e às vezes contra as decisões do Poder Central. Não será um movimento de protesto que porá em causa o portuguesismo de um povo com sete séculos de resistência às invasões.
Os arranjos e combinações da corte, as questões dinásticas, as ambições pessoais, a traição pura e simples sempre estiveram mais ligadas a quem tinha muito a ganhar ou muito a perder, e não a quem arriscava “apenas” a sua vida.
Ainda hoje, sob a capa do multinacionalismo ou mais recentemente da globalização, são os grandes grupos que ignoram as fronteiras e os interesses dos povos, essa arraia-miúda que, no intervalo das guerras, se dedicava ao contrabando artesanal, magra compensação dos perigos e do isolamento a que estavam votados. A abolição das fronteiras até isso lhes tirou.
Pôs um dia Eça de Queiroz na boca de um dos seus (anti?) heróis que “o País está entre S. Bento e a Arcada (Terreiro do Paço); o resto, é paisagem”.
Pois a paisagem tem vindo a conquistar o direito de cidadania, e a evolução do Poder Autárquico tem sido um dos motores dessa emancipação. E uma das conquistas da cidadania plena é o direito à contestação, e mesmo à indignação.
Pois que as gentes de Valença se manifestem, com a bandeira que entenderem. Os mais atentos devem ter notado que no dia inicial do protesto, não havia bandeiras espanholas em número suficiente, o que, para uma terra que se dedica ao comércio fronteiriço, é sintomático. Não tinham bandeiras, nem para atrair clientes! Isto mostra a espontaneidade do movimento e o sentimento profundo das gentes de Valença.
E não posso deixar de lembrar outro episódio de bandeiras, estas portuguesas. Foi preciso o brasileiro Filipe Scollari lançar a ideia para que por todo o País florescessem bandeiras, à conta de um campeonato de futebol. E, se bem se lembram, as bandeiras eram mais abundantes nos bairros populares. Outro caso para meditar.
Mas o ponto que mais me chamou a atenção, porque mais profundo, foi a questão das estatísticas. E aqui, por falta de dados concretos tenho de aplicar o conceito italiano de “si non é vero, é bene trovato”. Referia alguém de Valença que o Governo mandara fechar o posto médico porque tinha um atendimento de 1,7 doentes por dia; corrigia este cidadão que o atendimento era de 17 doentes por dia. Logo, alguém cometera um erro, e as consequências estavam à vista. O encerramento devia-se a uma gralha, coisa corrente para quem escreve numa máquina.
Insisto: não posso confirmar esta versão. Mas é tão sedutora, que não posso deixá-la de lado.
E assim teríamos a soberania portuguesa ameaçada por uma vírgula; o que cercos e batalhas não conseguiram, conseguiria uma vírgula, se, como é da praxe, quem cometeu o erro não o corrigir. Porque, como disse um Arcebispo daquelas terras, “o superior não erra; mas, se tal suceder, é dever do subordinado acompanhá-lo no erro, para bem da hierarquia”.
Todas as crises têm um nome. Razão porque proponho que esta se chame “A Guerra da Vírgula”.
Nuno Santa Clara














