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Quotidianos

PREOCUPAÇÕES PARTILHADASPor Rosário Vaz
BARREIRO

Inteiramente mergulhada nas questões em que o Barreiro se vê envolvido no dia-a-dia do seu presente, visando perspectivar um futuro diferente – o Barreiro cidade das duas margens, Barreiro, centralidade da Área Metropolitana de Lisboa, etc, etc, vou-me sempre interrogando acerca de que cidade será esta, qual “operário em construção”!

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PREOCUPAÇÕES PARTILHADAS Por Rosário Vaz BARREIRO

Por Jornal Rostos

Paralelamente a um quotidiano de correria desenfreada, aos dias stressantes e azafamados dos nossos tempos, ainda vai restando algum tempo para dialogarmos com esses grandes amigos, os nossos livros de mesa de cabeceira. Falo no plural porque é isso que muitas vezes nos acontece, ter empilhadas obras e autores que nos motivam e cativam para a sua escrita e diversidade temática. É disso que se trata efectivamente, neste caso e, de entre os vários, detive-me no “Contrato Sentimental” de Lídia Jorge.
Boa leitura, bons motivos de reflexão, feliz encontro comigo mesma, quando a páginas tantas, me sinto a partilhar, com a escritora, ideias que me são muito caras.
Inteiramente mergulhada nas questões em que o Barreiro se vê envolvido no dia-a-dia do seu presente, visando perspectivar um futuro diferente – o Barreiro cidade das duas margens, Barreiro, centralidade da Área Metropolitana de Lisboa, etc, etc, vou-me sempre interrogando acerca de que cidade será esta, qual “operário em construção”!
Há, efectivamente, dados que são pontos assentes e que passam pela certeza de que, entre outros condimentos, estaremos perante uma extensão urbana e habitacional acrescida, relativamente ao existente.
Sem que esse facto tenha de ser obrigatoriamente um factor negativo, não deixa de ser preocupante, se pensarmos que há uma multiplicidade de concepções de cidade que podem estar em perspectiva: a cidade aglomerado populacional, a cidade do trabalho, a cidade cultural ou a cidade cruzamento de alguns destes conceitos.
Sobre isso, diz-nos Lídia Jorge …”as cinturas moles de Lisboa e Porto crescem em forma de labirintos inorgânicos, reinaugurando a espontaneidade anárquica das velhas povoações medievais. A densidade torna-se absurda, as ruas que separam os imóveis têm o formato de galerias de roedores e não de vias públicas. Vistas do alto, as grandes barrigas dos arredores alastram em círculos como a auréola duma nódoa. E a nódoa só por si, apenas seria uma ferida na paisagem.” Mas mais adiante, Lídia Jorge continua …”enquanto a polis procura coincidir com o território da urbe e esta lhe escapa – progressivamente, escapa – o que de cidade disciplinada sobeja tem sempre um cheiro tórrido a pobreza, a exclusão e a violência. Esse é o território onde se cria o deprimido e o marginal”
No que diz respeito às preocupações culturais de uma cidade, diz-nos também a autora, …”Também a delimitação de centralidades baseadas no desenho de regiões com afinidades, no plano cultural, têm por princípio a criação de diferenciações em grande escala e não o estabelecimento de cópias ou movimentos de similitude”.
E, nas suas observações, continua afirmando que …” o excesso de habitantes é hoje o elemento tóxico que povoa o nosso temor em relação às cidades do futuro”, não deixando de nos dar conta de que …” o movimento dos cidadãos, organizações nacionais e internacionais que se interessam cada vez mais pelas populações desprovidas de meios, que se aglomeram nas nossas cidades, a que se junta o interesse dos repórteres atentos às narrativas privadas das pessoas em estado de carência e anomia, integram um saber que as gerações foram adquirindo década após década, no sentido da sobrevivência conjunta.
Sendo o “Contrato Sentimental uma obra datada de Setembro de 2009, Lídia Jorge bem parece colocar-se na posição da cidadã abrangida pelo Arco Ribeirinho Sul e, assim sendo, chama-nos a atenção para um sem número de questões prementes e a acautelar num megaprojecto que deverá ter sobre ele o olhar atento das populações atingidas.

ROSÁRIO VAZ

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